Ttulo: A Princesa e o Bandido.
Autora: Barbara Cartland.
Dados da Edio: Editora Nova Cultural, 1986.
Ttulo original: "Bride to a Brigand"
Gnero: Romance.
Digitalizao e Correco: Dores Cunha.
Numerao de Pgina: Rodap.
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Ttulo original: "Bride to a Brigand"
Copyright 1984 by Barbara Cartland
Traduo: Erclia Magalhes Costa
Copyright para a lngua portuguesa: 1986
Editora Nova Cultural Ltda.
Esta obra foi composta na Artestilo Compositora Grfica Lt e impressa na Editora Parma Ltda.
Nova Cultural - Caixa Postal 2372 - So Paulo

Nota Da Autora
Os pallikares eram uma tribo legendria de mercenrios, bandidos e salteadores, que viviam na regio montanhosa da Albnia: Lutaram com bravura na guerra pela independncia 
da Grcia e, terminada a batalha, o jovem e belo rei Otho nomeou
o chefe deles, general Xristodolous Hadjy-Petros, como seu ajudante- de-ordens.
Apesar de seus sessenta e poucos anos; o general era um homem muito bonito, alto, com um ar semibrbaro e sedutor, e veio a se tornar a figura de maior evidncia 
na corte, adulado e cortejado pelas mulheres.
Costumava usar roupas vermelhas, bordadas em ouro, e seus homens andavam sempre armados de pistolas e adagas, as quais no hesitavam em usar.
Seus cavalos tinham as selas e os freios enfeitados de ouro e prata e muitas mulheres de Atenas se apaixonaram por ele. At mesmo a rainha tinha pelo general uma 
atrao especial.
Os pallikares, em geral, usavam grandes bigodes, eram valentes e cheiravam a alho. Os grandes e pesados casacos de pele que vestiam faziam-nos parecer com os ursos 
das montanhas, embora muitos os comparassem a vespas, em virtude do estranho hbito de amarrarem faixas muito apertadas na cintura, para que esta ficasse incrivelmente 
fina.
Extremamente hbeis na caa, poderiam tirar em um faiso, cavalgando a todo galope. Tal habilidade estendia-se tambm s suas outras atividades, pois eram capazes 
de tomar de assalto facilmente nma aldeia ou uma propriedade, levando como presa uma bela mulher ou um cavalo de que gostassem,
Os pallikares pareciam ter o poder de aparecerem ou desaparecerem como- por encanto e a vida que levavam era, apesar de rdua, repleta de amr e aventuras.
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CAPTULO I
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- No! No! No!
A voz da princesa Ileana pareceu ecoar por todas as paredes da sala de teto alto.

De p, ao seu lado, o prncipe herdeiro, Tomilav, dizia:
- Mas voc precisa se casar com algum, Ileana! E por que no comigo?
A voz de Tomilav revelou um misto de amargura e de impacincia. Era-lhe inconcebvel que a princesa pudesse rejeit-lo daquela maneira. Afinal, ele era, sem dvida, 
um belo rapaz; acostumado a ser adulado por dezenas de mulheres, em seu pas.
Alm do mais, na sua posio de prncipe daMoldvia; estava ciente da importncia daquele pedido. Sentia-se furioso e, ao mesmo tempo, humilhado com o fato de que 
a mulher que amava tivesse recusado todas as suas propostas de casamento.
- J lhe disse vrias vezes, Tomilav, que no tenho a menor inteno de me casar com ningum!
- Ora, mas tudo isso  ridculo!  evidente que tem de se casar!
- Posso saber por qu?
- Por que reage dessa forma, Ileana? Seu pai est morrendo e voc sabe muito bem que Zokala precisa ter um rei.
- E por que no pode ter uma rainha? - disse ela, levantando o queixo. - Pretendo governar meu pas e certamente
o farei muito melhor do que um estrangeiro que no conhea nosso povo.
- S voc est se referindo a mim, fique sabendo que  o comentrio mais injusto que j fez! - disse o prncipe, indignado. - Minha gente e a sua no apresentam 
grande
diferena da Zokala.
A princesa Ileana sorriu, o que a fez
mais bonita.
- Hngaros, romenos, e tantos outros, reunidos em
um cadinho que  Zokala! E o resultado  esse: uma gente
maravilhosa.
- Voc  que  maravilhosa, Ileana! Nada se compara  sua
beleza! Case-se comigo!
Ela olhou demoradamente para Tomilav e a expresso de
seus estranhos lhos verdes tornou-se um pouco mais suave,
ao dizer:
- Querido Tomilav, ns nos conhecemos desde crianas e,
sem dvida alguma, voc  um homem atraente. No entanto,
estou certa de que, se me casasse com voc, depois de dois ou
trs dias de vida em comum, eu iria me sentir como se o
estivesse matando.
- Ora, mas... por qu? - O prncipe no escondia sua
surpresa:
- Porque voc me aborrece. Todos os homens me aborrecem
quando eu os conheo bem. Somente os cavalos no me desapontam jamais!
Afastando-se de Tomilav, ela foi at a janela para admirar
a vista do vale, l embaixo, no sop da colina em que se erguia o palcio.
Zokala era um pequeno reino, repleto de montanhas, rios
e vales muito frteis, que proviam os habitantes de todo alimento
de que precisavam.
Fazendo fronteira com trs pases, muito maiores, a Hungria,
a Romnia e a Srvia, ocupava uma posio estratgica, e o
trono, que ficaria vago com a morte iminente do rei, era extremamente cobiado pelos jovens prncipes dos Blcs.

Entretanto; no era apenas o trono de Zokala que os atraa;
mas tambm a linda e nica filha do rei Milko, que possua
todas as qualidades que procuravam em uma mulher.
Alm de sua beleza e de seu porte elegante, Ileana era uma
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excelente amazona, jamais vencida em um galope pelas estepes, e seus trajes de montaria, criados por ela mesma, tornavam-na
irresistivelmente sedutora.
- Para espanto e consternao das geraes mais velhas, Ileana costumava cavalgar montada no animal, e no sentada de lado, como convinha a uma mulher. Sobre o casaco 
azul e vermelho
semelhante a um uniforme de cossaco, ela usava um cinto largo e cartucheiras de prata, complementados por botas altas e um
gorro de pele de raposa prateada ou de zibelina.
Tambm muito destemida, a princesa sempre escolhi os garanhes mais indomveis para cavalgar. Montava melhor do
que os ajudantes-de-ordens que a acompanhavam e at mesmo do que os soldados das tropas da cavalaria.
Era de se admirar que o rei Milko, um homem simptico, porm extremamente conservador e apegado s tradies, houvesse criado a filha para romper com todas as regras 
sociais.
E lleana, a despeito de sua compleio delicada, tinha um temperamento forte. rebelde e parecia sempre querer desafiar
o mundo todo.
Sua me, que morrera quando ela ainda era pequena, havia sido uma mulher de rara beleza, descendente de russos e hngaros, combinao que, talvez, tivesse contribudo 
para a natureza impetuosa da filha.
Quando o rei Milko cara doente e os mdicos mostraram-se desalentados, sem esperana de salv-lo, Ileana, com toda fora - de sua personalidade, havia tomado as 
rdeas do governo e os estadistas, que esperavam dominar facilmente uma mulher, logo
se viram aceitando suas imposies e ordens, sem condio de desafi-las.
Entretanto; o primeiro- ministro, como todo o ministrio, descontente com a situao e desejoso de que ela se casasse, para que no tivessem que receber ordens de 
uma mulher, havia incentivado os prncipes solteiros dos pases vizinhos a cortejarem a princesa de Zokala.
Com esse encorajamento, vieram prncipes da Bsnia Albnia, Romnia. de Montenegro e da Grcia.
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Para um prncipe jovem, sem chance de suceder o paterno trono, a oportunidade de reinar em um dos mais belos e prsperos pases dos Blcs, aliada ao fato de se 
casar com uma
das mulheres mais maravilhosas que pudessem existir, era uma verdadeira ddiva dos cus:
Porm os planos e aspiraes de Ileana eram outros. Ela recusara a todos os pedidos de casamento, zombara dos prncipes e permanecia na firme inteno de governar 
seu pas sozinha.
Alguns deles, aos quais a princesa no havia tratado com
excessiva arrogncia e desdm, voltavam a cortej-la e o mais persistente era, sem dvida, o prncipe Tomilav. E, como ele afirmava ali, naquele momento, estava 
realmente apaixonado por ela.

- Por que no me escuta, Ileana? - ele perguntou. Voc pode dizer o que quiser, mas precisa admitir que fomos feitos um para o outro.
- Essa  a sua opinio.
- Mas eu aamo!
- Se eu fosse uma camponesa - o tom de voz de Ileana era
de desprezo -, eu ocuparia um lugar bem diferente em sua vida.
- Mesmo assim, eu a amaria e a faria muito feliz! Sem deixar de notar o tom-apaixonado que o prncipe Tomlav
conferia quelas palavras, ela, instintivamente, afastou-se um pouco.
- No quero amor nenhum!
- Como no quer amor? O que quer dizer com isso?
- Quero dizer, exatamente, que o amor  uma emoo tola, um sentimentalismo exagerado e ridculo; louvado e cantado
apenas por poetas.
- Voc no sabe o que est dizendo!
- Felizmente, sei muito bem! J ouvi voc e vrios outros homens jurarem amor por mim, dizerem o quanto os deixo enlouquecidos e que, se me tiverem nos braos, serei 
a mulher mais feliz da face da terra. Mas tudo isso  uma grande mentira!
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- Voc nada sabe sobre o amor; Ileana! Talvez porque seja
ainda muito jovem - respondeu o prncipe, um tanto inseguro.
Ileana riu e continuou:
- Ora, Tomilav, voc est tentando convencer a si mesmo.
 A verdade  que, nem voc, nem qualquer outro homem que
j encontrei, teve o poder de me fazer ficar apaixonada. A nica
coisa que conseguiram foi me aborrecer, quando se tornaram
arrebatados, querendo despertar em mim emoes que eu jamais
senti, nem sentirei.
- Como pode estar certa de que nunca sentir tais emoes?
- Simplesmente, porque sei que sou diferente de todas as
outras mulheres: Nada me excita e me apaixona mais do que
saber que o cavalo que estou domando tem que me obedecer e
que, por mais que lute, ter de se submeter s minhas ordens.
Sei que sempre serei sua dona e sua mestra. E homem algum
jamais poder dar-me prazer igual ao que sinto cavalgando um
belo animal, a todo galope, e deixando todos os outros para trs.
O prncipe respirou fundo, admirado com a excitao e a
sensualidade que havia na voz de Ileana. Naquele instante, ele
seria capaz de dar tudo o que possua para ouvi-la falar daquele
modo a seu respeito.
Instintivamente, aproximou-se dela e estendeu seus braos,
pensando em abra-la.
Sem se voltar e continuando a observar o vale, ela disse:
- Se me tocar, Tomilav, nunca mais falo com voc!
por um momento, ele hesitou. Mas, depois, deixou cair os
braos; desalentado.
- Maldio! Ileana, voc deixa qualquer homem louco!
- J ouvi isso milhares de vezes! E agora, pelo amor de
Deus, v embora, pois o primeiro-ministro est esperando por
 mim. No posso mais perder tempo ouvindo suas tolas declaraes de amor!
- Acha; realmente, que qazar  perda de tempo?

A mgoa na voz do prncipe era to evidente, que pareceu
sensibilizar um pouco o corao de Ileana, que respondeu, mais
suavemente:
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- Gosto de sua companhia; Tomilav, e admito que  m excelente cavalheiro. Mas acaba se tornando insuportvel quando resolve conversar sobre amor.
Voc sabe que isso no me interessa.
Percebendo que o prncipe apertava os lbios, ela continuou, mais gentil:
- Jantaremos juntos esta noite e, depois, haver um baile, que, certamente, ir escandalizar os mais velhos, que gostam de fazer comentrios maldosos, j que papai 
est to mal.
- Com certeza, essas pessoas desejariam que voc ficasse ao lado de seu pai, lastimando-se, chorando, sem levar em conta que ele est em coma h mais de seis meses! 
- disse ele, como se fosse sua obrigao vir em defesa de Ileana.
- Concordo com voc! De qualquer modo, porm, ser um pequeno baile. Um grupo de ciganos vir tocar para ns.
Tomilav olhou-a surpreso:
- Voc acha que isso  uma atitude sensata?
- O que quer dizer com "atitude sensata? "
- Voc sabe muito bem que -no se deve confiar em ciganos. Ningum os convidaria para entrar em sua prpria casa, muito menos em um palcio!
A risada de Ileana ecoou pela grande sala de teto alto e pintado.
- Isso  o que vocs, da Moldvia, pensam. Mas aqui os ciganos so parte de nosso povo e de nossas vidas.
Sabendo que de nada adiantaria qualquer argumento, Tomilav resolveu calar-se, limitando-se a sacudir os ombros, em sinal de desinteresse.
Por outro lado, ele reconhecia muito bem que Ileana estava se expondo a crticas que certamente poderiam ser evitadas. De certa forma, ela estava sendo imprudente, 
pois era notrio que no s os cidados de Zokala, mas de todos os Blcs, comentavam sobre as atitudes ousadas da princesa. Todos criticavam seu modo de cavalgar, 
montada como um
homem sobre a sela; tampouco aprovavam suas competies com os nobres do pas, com os jqueis e domadores profissionais, a
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quem, alis, la vencia sempre. Alm disso, costumava vestir-se
como homem e escalava as montanhas mais altas do pas.
No vero, contrariando tudo que era convencional para as
mulheres, Ileana ia nadar nos lagos que havia entre as montanhas e cujas guas permaneciam geladas, mesmo nos dias
mais quentes.
Apesar de essas regies serem bastante isoladas e de no
haver muitos espectadores, sabia-se que ela usava trajes de
banho bem justos, que modelavam seu corpo bem-feito, um
escndalo aos olhos da populao.
E as histrias sobre a princesa vinham se multiplicando, principalmente porque era inegvel o deslumbramento que ela causava, com sua beleza, a todos que nela pousassem 
o olhar.
Muitos comentrios eram verdadeiros, enquanto que outros
no passavam de exageros e de fantasias. Entretanto, devido
 sua personalidade marcante, era impossvel ignorar a linda

princesa; e o passatempo preferido do povo de Zokala parecia
 ser o de falar sobre o modo de vida de Ileana.
Mas ela no chegava a se incomodar com essa situao e o
que realmente pretendia era divertir-se, aproveitar a vida, praticar esportes e dedicar-se a tudo de que mais gostava.
Logo que seu pai cara doente e que, portanto, no exercia
mais autoridade sobre ela, Ileana havia despedido todos os
serviais que a criticavam e substitura seus ajudantes-de-ordens
por outros, mais jovens, que se curvavam a seus desejos e que
a obedeciam prontamente.
Alm do mais, ela fazia questo de deixar bem claro que era
ela quem governava o pas, uma vez que seu pai estava doente,
incapaz de faz-lo.
Depois de se despedir do prncipe Tomilav, deixando-o tristonho, embora ainda determinado a conquist-la, ela caminhou
pelo longo corredor, em diro  Cmara do Conselho.
O sol que penetrava pelas janelas iluminava seus cabelos,
realando-lhes a cor avermelhada, herana dos ancestrais hngaros, fazendo-a assemelhar-se a uma jovem Diana, a deusa
da caa.
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E enquanto caminhava pelo corredor, Ileana pensava que, assim que se visse livre da audincia com os estadistas, iria cavalgar l embaixo, no vale. Estava ansiosa 
para montar Sat,
um garanho comprado recentemente, para competir com dois
de seus ajudantes-de-ordens.
O animal recebera esse nome justamente por ser indmito, considerado diablico pelos cavalarios, pois j havia machucado trs rapazes do estbulo que haviam tentado 
sel-lo.
Para Ileana, entretanto, Sat era um desafio e um prazer. Quantas noites, em seu enorme leito todo trabalhado, com o baldaquino sustentado por anjos dourados, ela 
havia sonhdo com um animal como aquele!
Ainda no meio do longo corredor, lleana parou durante alguns
instantes, como a observar o ambiente ao seu redor.
O palcio de Zokala era; sem dvida, um dos mais romnticos do mundo.
Sua av, que, apesar de ter feito um casamento baseado em
arranjos polticos, havia se apaixonado loucamente pelo marido, resolvera criar no pequeno reino uma atmosfera romntica; que
condizia com o sentimento que invadia seu corao.
Ela havia chamado os melhores artesos, pintores e decoradores, que transformaram a moradia num verdadeiro palcio de contos de fadas, uma tal maravilha que surpreendia 
a todos que o visitavam, pela sua originalidade e bom gosto. E era naquele ambiente de sonhos, com suas colunas de mrmore cor-de-rosa e malaquita, com o teto todo 
pintado por
grandes artistas, as paredes revestidas de ouro e prata, a beleza sem par das cpulas e torres, os ptios revestidos de mosaicos brilhantes, que vivia Ileana e que 
tambm vivera sua me.
De repente, dando-se conta do que a esperava, a princesa

apertou o passo e, ao entrar na Cmara do Conselho, seus olhos verdes estavam perspicazes e alertas. Sua intuio lhe dizia que os estadistas, que haviam solicitado 
a audincia, no lhe dariam notcias agradveis.
Assim que entrou no salo que bem poderia acolher trmta
pessoas sentadas; confortavelmente, ao redor da grande mesa
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envernizada, ela constatou, surpresa, que, em vez dos doze
homens que esperava encontrar ali, estavam apenas o primeiroministro e o camareiro-mor.
Ao contrrio da maioria do povo de Zokala, que costumava
ter uma estatura acima da mdia, o primeiro-ministro era um
homem baixo, que carregava sempre uma expresso de aborrecimento estampada no rosto. Entretanto, era uma pessoa muito
inteligente e se preocupava bastante com o futuro do pas.
O camareiro-mor, por sua vez, era um homem de idade avanada, um ardoroso monarquista em que Ileana confiava plenamente e a cujos conselhos recorria sempre que tinha 
qualquer
problema relacionado ao prestgio do reino.
Ela foi ao encontro dos dois e, depois de cumpriment-los
sorrindo, sentou-se  cabeceira da mesa, em uma cadeira de
espaldar alto, todo entalhado, semelhante a um trono.
-  um prazer v-lo aqui, primeiro-ministro - disse ela.
- No entanto, estou surpresa de ver que no est acompanhado
por mais colegas seus.
- Julgamos que o assunto que temos a discutir deva ser
 tratado pelo menor nmero de pessoas, at que cheguemos a
uma deciso.
Ela olhou para um homem, depois para o outro e deu um
pequeno suspiro, tendo a certeza de que iria ouvir as mesmas
coisas que j havia ouvido inmeras vezes antes.
 - De que se trata? - perguntou.
- O camareiro-mor e eu viemos at vossa alteza para perguntar se j fez a escolha do nosso futuro rei.
- Imaginei que ira me perguntar isso; porm, sabe to
bem como eu, primeiro-mnistro, que no tenho inteno de me
casar.
- Sim, sabemos que essa tem sido sempre sua resposta
- continuou ele, calmamente. - Mas, agora, torna-se imperioso
que vossa alteza se case to logo seja possvel.
Seu tom de voz era to firme que Ileana encarou-o surpresa,
antes de perguntar:
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- H algum fato novo de que ainda no me puseram a par? Porque toda essa urgncia? Est acontecendo algo muito srio?
O primeiro-ministro olhou para o camareiro-mor, como que a pedir que reforasse suas palavras, e respondeu: 
- Fomos informados, alteza, de que uma tribo armada,
chefiada pelo general Vladilas, est acampada nas montanhas,
do outro lado do vale.
- General Vladilas? No me lembro de haver ouvido falar
nesse nome antes.
- Ele chefia umgrupo nmada de bandidos e ladres que
j so conhecidos nos pases vizinhos, mas que, para ns, s
agora comeam a constituir ameaa:
- Conte-me sobre eles - pediu ela, visivelmente interessada.
Houve um pequeno silncio e Ileana percebeu que o primeiroministro escolhia bem as palavras, com medo de assust-la.
- Suponho que vossa alteza j tenha ouvido falar sobre os

pallikares.
- Sim, claro, mas no sei muita coisa a respeito.
- O corpo principal da tribo sempre esteve em terras
gregas...
- Ah, j sei de quem est falando! - interrompeu ela: Eles so legendrios e imagino que sejam magnficos e valentes
guerreiros.
-  verdade - concordou o primeiro-ministro. - Entretanto, ao mesmo tempo que podem ser muito teis a um pas
em tempo de guerra, podem se tornar uma verdadeira ameaa
em tempo de paz!
Enquanto ele falava, Ileana tentava se lembrar do que sabia
a respeito dos pallikares.
Algum os descrevera, certa vez, como os homens mais interessantes do norte da Grcia. Suas roupas eram bordadas a ouro.
costumavam lutar com pistolas, que no hesitavam em usar,
e seus cavlos eram arreados com prata e ouro.
- Eles devem ser fascinantes - observou ela.
- Realmente, os homens tm um ar superior, vangloriam-se
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de seus enormes bigodes, usam casacos de pele e parecem
grandes ursos.
- Por que eles vieram at aqui?
- No posso responder a essa pergunta - disse o primeiro-ministro. - Porm, o camareiro-mor e eu estivemos aqui discutindo as possibilidades de os pallikares se 
estabelecerem nessas
redondezas. E uma coisa  certa: eles significam problemas.
- Que tipo de problemas?
- Se estiverem em grande nmero, podero, facilmente,
conquistar uma parte do pas.
- Quer dizer que declararo guerra contra ns?
Ele respirou fundo, antes de responder:
- Receio, alteza; que sim. Entretanto, ser uma guerra
diferente. Os pallikares so homens muito estranhos, que vm
das montanhas, descem para as plancies, roubam o que querem,
seja alimento, bens, mulheres, e desaparecem, voltando para o
lugar de onde vieram, sem que se possa fazer nada contra eles.
- E, para evitar que faam isso, julga que devemos expuls-los  fora?
- Creio que nosso exrcito, embora seja pequeno, consiga
derrotar e expulsar os pallikares.
Enquanto ele falava, seus olhos encontraram os de Ileana,
que o encarou, como num desafio.
- O que est querendo dizer, caro primeiro-ministro,  que
tal situao requer que eu me case, para que d um rei, um
homem que possa liderar nossas tropas, e a quem todos seguiro.
- Vossa alteza real fez suas as minhas palavras - disse
ele, com uma nota de satisfao na voz.
- Ento pensa, realmente, que nossos generais no so
capazes de lutar contra esse bando de vagabundos e ladres?
- Acredite-me, alteza - respondeu o primeiro-ministro,
visivelmente aborrecido. - No sabemos quantas so as suas
tribos; mas pode ter certeza de que so bem numerosos: O generl Vladilas  conhecido e temido na Bulgria e h rumores
de que a Albnia seja a sua prcima conquista:

- Que idade ele tem?
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- No tenho idia, altza. Na verdade  um homem misterioso. Poucos falam sobre ele; mas h lendas sobre sua invencibilidade que ultrapassam as fronteiras. Isso 
significa que as
pessoas ficam assustadas ao ouvir o nome dele. E  evidente
que o nosso povo espera que algum,  altura de Vladilas, possa
combater os pallikares.
- Um rei! - exclamou Ileana, quase sem voz.
- Exatamente! Vossa alteza deve compreender que precisamos de um rei jovem, que conduzir nossas tropas e a quem
nossos soldados seguiro no s porque o respeitam, mas tambm porque o admiram.
Nesse momento, o camareiro-mor, que havia permanecido em
silncio at ento, deu seu parecer:
- No  somente questo de armas, alteza. Para vencr uma
batalha,  necessrio o esprito de luta dos soldados e o sentimento de solidariedade pelo povo que eles defendem.
- Compreendo o que est dizendo, meu senhor - replicou
Ileana -, mas onde encontraremos um homem com tais caratersticas?
Houve um pesado silncio no salo e ela percebia que o
primeiro-ministro estava passando em revista a longa relao
de pretendentes, como a escolher qual preencheria melhor o
lugar de rei daquele pas.
Antes que ele pudesse responder, entretanto, a princesa perguntou:
- Realmente acredita que um estrangeiro, no importa que
tenha ou no sangue azul, possa, de repente, de um dia para o
outro, impressionar nosso povo, conquistar sua confiana e ser
benquisto, conforme acabou de dizer?
Havia um certo sarcasmo na voz de Ileana e, antes que
qualquer um dos dois pudesse responder, ela continuou:
- A nica coisa que ter a seu favor  o fato de ser casado
comigo. Dessa forma, eu mesma conduzirei minhas prprias
tropas, e tenha certeza de que, se estes sanguinrios tentarem prejudicar Zokala, ns os expulsaremos de tal modo, que
nunca mais nos atacaro.
Os dois homens olharam para ela, atntos.
O primeiro-ministro foi o primeiro a recobrar a voz.
- O que est dizendo  impossvel, alteza! Absolutamente
impossvel! 
- Por qu?
- Simplesmente, porque vossa alteza  uma mulher!
- Ento, no concorda que eu tenha muito mais determinao e muito mais conhecimento do que  preciso e tambm
muito mais amor por meu pas do que qualquer forasteiro
pssa ter?
- Claro que tem! Isso  bvio! No entanto, nenhum
pas pode ter seu exrcito conduzido, num combate, por uma
mulher!
- Houve muitas mulheres na Histria que j o fizeram!
- Ora, mas isso foi h centenas de anos atrs! No hoje,
com armas modernas.
- E isso, por acaso, faz muita diferena? Pode-se morrer
tanto por uma flechada, como por uma bala.

- Estamos apenas especulando -. interrompeu o camareiro-mor. - Essa conversa no nos levar a nada. O assunto 
muito srio e pedimos a vossa alteza que considere nosso pedido
com seriedade e que lhe d a devida importncia.
- No estou menosprezando o pedido de ambos.
- O que pedimos - continuou o camareiro-mor, como se
ela nada houvesse dito -  que vossa alteza escolha um de
seus pretendentes que estiveram visitando Zokala nos ltimos
 seis meses. Cada um deles fazia-nos ter esperanas que, depois de sua partida, iramos festejar o noivado de vossa alteza.
O modo como ele falou tais palavras fez Ileana compreender
que no devia discutir, nem provoc-lo.
 Ento, com voz calma, como se estivesse tratando de um
negcio; disse:
- Apreciei muito que houvessem tratado desse assunto comigo, antes de ele ser abordado em uma reunio com seus
colgas. Gostaria que me fosse dado um pouco de tempo, para
meditar neste assunto to delicado, to srio, e, assim que tiver
feito minha deciso, virei inform=los: - Uma expresso de alvio tomou conta do rosto dos dois
homens e o primeiro-ministro adiantou-se:
- Sua atitude nos enche de alegria, alteza, e s podemos agradecer pelo fato de tr compreendido que nossa posio  extremamente precria. No desejamos assustar 
o povo, a no ser que isso seja extremamente necessrio.
- No, claro que no! - concordou ela. - Entretanto, quero um relatrio completo de nossos generais sobre as tropas disponveis e gostaria tambm de saber, o mais 
cedo possvel,
o nmero e as intenes dos pallikares.
- Lamento informar, alteza, mas nossos espies no tm
sido muito eficientes at agora.
- O que quer dizer com isso? - a voz de Ileana era dura.
- Sempre esperei que o setor de espionagem de um exrcito s pudesse ser considerado extremamente eficiente! O que aconteceu?
-  lamentvel; porm, desde que o coronel Bartik morreu; ningum foi indicado para seu posto.
Ela olhou para o primeiro-ministro, atnita.
- Ento, isso significa que o servio de espionagem no est operando no momento?
- Devo dizer que esse servio no foi bem coordendo desde a morte do coronel - respondeu ele, extremamente nervoso.
-  ma negligncia grave, principalmente neste momento. Sinto-me culpada por no ter pensado nisso antes.
- No era tarefa de vossa alteza - observou o camareirw mor: - No entanto, como deve saber; os generais mais velhos no gostam de se sujeitar a nvos mtodos de 
treino blico. Preferem as estratgias antigas que, exceto na Rssia no incluem espionagem.
- E por que no, se, no momento, o que mais precisamos  de espies? Espies que se infltrem entr os pallikar e que nos informem de suas intenes, espies que
descubram o que o general Vladilas pretende e que descubram se, afinal, ele se constitui ou noem uma ameaa.

- S posso concordar com vossa alteza - disse o primeiro-ministro timidamente. - Por outro lado, sem o coronel Bartik,
no temos idia de como podemos operar no setor.
Ileana tamborilou os dedos na mesa.
- Deve haver muitos jovens corajosos e que gostam de
aventuras em nosso exrcito. Sem dvida, eles se ajustariam
bem a esse tipo de tarefa e poderiam descobrir o que queremos
saber.
- Receio que vossa alteza no entenda muito desse assunto.
Se, de fato, os pallikares, sob o comando do general Vladilas,
esto nas montanhas, segundo nos informaram, na certa estaro
observando todo o vale com "olhos de guia".
- Devo admitir que  uma suposio sensata - respondeu ela.
Enquanto falava, Ileana pensava na vista magnfica que se
tinha de todo o vale, quando se estava no alto do monte Bela.
Ela j havia escalado aquele monte e ficara extasiada com o
 que vira, principalmente com o palcio que, l embaixo, parecia
uma casa de bonecas.
Seria impossvel para qualquer soldado aproximar-se das
montanhas sem ser visto pelos pallikares e eles; sem dvida,
atirariam em quem quer que se aproximasse.
Subitamente, tudo lhe pareceu muito mais complexo do que
a princpio imaginara.
Por outro lado, refletia que, se no pudesse achar uma soluo,
o seu casamento com um estrangeiro no iria tornar as coisas
mais fceis.
Entretanto, estava certa de que o pedido do primeiro-ministro
e do camareiro-mor era bem razovel, considerando-se as circunstncias.
As mulheres de Zokala, assim como as demais dos pases
balcnicos, mantinham, tradicionalmente seus lugres: atrs
do marido, nem mesmo a seu lado. Elas podiam governar seu
lar e, sem dvida, as mais ativas o faziam. No entanto, no intervinham em qualquer assunto que se referisse  nao.
Havia at um distrito, na Hungria, em que tratavam os seus maridos com muita deferncia e nem lhes ra permitido sentarem-se  mesa com eles: E, mesmo em Zokala, 
a grande maioria dos homens achava que as mulheres haviam sido feitas para seu prazer e para pouca coisa mais.
Extremamente preocupada com o que acabara de ouvir mas
sem querer demonstr-lo, la levantou-se, dizendo:
- Como j lhes disse, prezados cavalheiros, pensarei sobre
tudo quanto me disseram e, em breve; lhes darei uma resposta. S lhes peo que no me pressionem.
- Ela sorriu, mas o rosto do primeiro-ministro estava srio
quando ele respondeu:
- Embora estejamos profundamente gratos a vossa alteza,
gostaramos apenas de lembr-la de que o tempo  de importncia vital. Os pallikares j devem ter seus planos de ataque: E isso pode acontecer amanh ou daqui a 
uma semana; ningum sabe. Entretanto, precisamos estar preparados para enfrent-los.
- Concordo com o que diz, porm; ao mesmo tempo, lembro-me do antigo ditado: "Devagar se vai ao longe! "
Ela reconhecia que no estava sendo sincera ao dizer aquelas

palavras. Ao contrrio, sempre quisera enfrentar as dificuldades e remover todos os obstculos para atingir seus objetivos, sem jamais deixar para depois o que podia 
ser feito no momento.
Enquanto o primeiro-ministro e o camareiro-mor saam do
salo, fazendo-lhe reverncias, com sorrisos de satisfao nos lbios, liana refletia que no poderia nem deveria se casar em
tais circunstncias.
Pela primeira vez em sua vida, desde que deixara de ser
criana, sentiu-se como se estivesse em uma armadilha e que barras de feno a mantinham prisioneira de uma situao intolervel. Desde muito jovem, Eliana decidira 
no se deixar prender nos laos do matrimnio.
Apesar de seus pais terem sido muito felizes juntos, toda
vez que Ileana olhava  sua volta, podia ver exemplos sem
conta de homens e mulheres que estavam unidos pelo que se
chamava "bno do Senhor" e que eram extremamente infelizes.
Lembrava-se claramente da primeira vez que percebera o
quanto uma mulher podia sofrer, quando viu a dama de companhia de sua me, a baronesa de Spryidon, chorando amargamente no jardim, supondo que ningum a observava.
- O que aconteceu? Voc caiu? - perguntou ela, pensando
que a dama de companhia havia se machucado. Posso
ajud-la?
A baronesa, uma mulher extremamente bonita, a quem Ileana
sempre admirara, erguera o rosto e ela havia percebido que
as lgrimas corriam copiosas pelas faces e que os olhos negros
estavam tambm inundados de lgrimas.
 - O que houve? - insistira ela. - Por favor, no chore
assim!
Depois de enxugar as lgrimas com seu lencinho, a baronesa
respondera:
- No  nada, alteza. E, por favor, no diga a ningum
o que viu.
Imediatamente havia se levantado do banco de pedra, onde
estava sentada, e dirigira-se ao palcio, deixando Ileana perplexa,
sem entender o que havia acontecido.
Mais tarde, em seu quarto, a princesa comentara o incidente
com a velha governanta:
 - No creio que a baronesa esteja muito bem. Parece estar
infeliz, Nanny. Achei-a muito plida. Ser que. est doente?
A velha governanta, que gostava muito de mexericos, havia
feito um ligeiro ar de reprovao, dizendo:
-  seu corao que sofre, e no h cura para esse mal.
- Seu corao? - Ileana perguntava; surpresa.
- Aquele homem deveria se envergonhar do que faz. Seu
pai precisava ter uma conversa sria com ele; entretanto; Sua
majestade ainda no viu o que est acontecendo logo abaixo
de seu nariz:
22
Eliana ficou em silncio, lenbrando-se do baro, um dos oficiais de maior confiana de seu pai.
Era um belo homem e ela pudera, ento, compreender por que algum lhe dissera, certa vez, que ele tinha olhos sonhadores.
E, naquela mesma noite, antes de se deitar, Ileana havia visto o baro conversando com outra dama de companhia; uma jovem muito atraente, que assumira seu cargo 
h pouco e cujo marido estava ausente, servindo o exrcito.

O baro era um tanto ousado e ela, por sua vez, no desestimulara essa ousadia. Ao contrrio, parecia encoraj-lo com sorrisos fulgurantes, que diziam muito mais 
que as palavras.
Ainda um pouco confusa e chocada, Ileana comeara, ento,
 a observar melhor o que acontecia ao seu redor e, com olhos crticos, havia descoberto que tudo era bem diferente do que imaginara quando era menor.
Chegara a pensar que todos eram muito felizes, que viviam entre risos e alegrias, que apreciavam a vida e que todos os casais viviam em perfeita harmonia, como sempre 
viveram seus pais.
A partir daquele momento, no entanto, tivera a sensao de que uma fada m lhe mostrava as imperfeies, as mculas que havia em tudo que sempre lhe parecera to 
perfeito.
Mais tarde, ela viera a descobrir que o baro olhava com o maior interesse para cada rostinho novo que aparecia  sua
frente e que deixava sempre uma trilha de coraes despedaados por onde passasse.
Por outro lado, a baronesa tornava-se, a cada dia, mais magra;  plida e triste. Nunca mais Ileana a vira chorando, porm estava certa de que ela sofria e que desabafava 
seus sentimentos na
 solido de seus aposentos.
Certa vez, a baronesa ficara ainda mais magoada e ressentida
quando ficara sabendo que o marido havia sido desafiado para um duelo, por um marido enciumado e ofendido. O duelo deu-se nos bsques do castelo; de madrugada, e, 
infelizmente, fora o marido ultrajado quem ficara ferido, enquanto que o baro havia continuado, impunemente, a se 
interessar por todas as carinhas novas que apareciam no palcio:
Certamente, havia grande escolha para ele, pois as mulheres
de Zokala eram extremamente atraentes.
Numa outra ocasio, quando Ileana cavalgava pelos campos
 vira, casualmente, o baro se comportando de maneira ultrajante com uma jovem camponesa, muito bonita. Compreendendo
perfeitamente as intenes dele, ela havia criado, em sua mente
uma barreira contra os homens, como se todos fossem a imagem
do baro.
A partir daquele momento; jurara que jamais se prenderia
a homem algum e que nunca permitiria ser humilhada daquela forma.
A medida que fora crescendo, via sumir de vista aquele
mundo cor-de-rosa. Para cada lado que olhava, s via homens
infiis para suas esposas.
Por outro lado, as mulheres, com quem os homens tinham
seus casos, logo eram abandonadas, s lhes restando a alternativa de chorar, se lastimar e de se contentar em viver das memrias dos dias felizes.
- Isso jamais acontecer comigo! - disse Ileana em voz
alta.
Entretanto, tinha conscincia de que estava enfrentando um
problema muito srio, que no podia ignorar nem pr de lado.
E, uma vez que assumira as rdeas do governo, desde que
seu pi ficara doente, precisava arcar com todas as consequncias e assmir todos os problemas:

Como poderia se recusar a dar ao pas que ela tanto amava,
e que era uma parte de si mesma; um lder que a prpria
situao exigia? O pas precisava de um rei. E a tradio dizia que o pas deveria ser governado por um homem.
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CAPITULO II
Ileana olhou atentamente ao redor da mesa, na Cmara do Conselho, constatando que os oficiais mais graduados de seu exrcito eram todos muito velhos.
Pareciam to cheios de pompa, no brilho de seus uniformes cobertos de medalhas, dragonas e cordes tranados, dourados; entretanto, em sua maioria, j estavam calvos, 
usavam culos e os cabelos eram grisalhos nas tmporas.
Era evidente, tambm, o ar de apreenso que havia em todos eles, que desconheciam o motivo daquela reunio, que ela convocara logo pela manh.
Ileana usava um traje de montaria, numa tentativa de fazer com que os oficiais se esquecessem de que era mulher. Entretanto, apesar de suas roupas, ela no podia 
esconder toda a beleza de seus cabelos vermelho- dourados, a feminilidade de seus olhos verdes, com longos clios escuros, ou a suavidade de sua pele translcida.
- Bom-dia, cavalheiros! - cumprimentou ela, estritamente formal. - Convoquei esta assembleia porque recebi do primeiro-ministro notcias muito srias.
Ela percebeu que todos imaginavam que o assunto seria sobre o fato de os pallikares estarem nas vizinhanas; mas logo a expresso dos oficiais mudou, quando Ileana 
prosseguiu:
- Fiquei surpresa, de fato, atnita, ao saber que, depois da morte do coronel Bartik, seu cargo est vago!
Ela dirigi um olhar bastante sevro ao general que estava a seu lado e perguntou-lhe:
- Poderia explicar essa omisso, general?
Depois de uma pausa, o homem respondeu: - Consideramos, alteza, que nosso exrcito era muito eficiente sem o tipo de servio prestado pelo coronel Bartik:
 - No entanto, agora ficou provado que no foi uma atitude
sbia menosprezar esse tipo de servio. - A voz da princesa
era no s dura, mas um tanto sarcstica. - Temos informao
de que os pallikares esto acampados em nossas terras, mas
no sabemos quantos so eles. Alis, nem msmo sabemos se
so pallikares... Se tm intenes pacficas ou se vo causarnos problemas.
Um silncio constrangedor inundou o salo e, logo depois,
ela continuou, no mesmo tom reprovador e autoritrio:
- No posso mesmo deixar de condenar tal omisso. Por
isso, quero que me digam, agora, o que pretendem fazer sobre
o assunto.
Novamente, houve um pesado silncio e Ileana, ao observar
a expresso dos oficiais e percebendo que no tinham sugesto
lguma a fazer, perguntou:
- Quantos homens, em suas foras armadas, so experientes
em escalar montanhas?
Depois de uma longa pausa, um dos oficiais manifestou-se:
- Sempre que a situao o exigiu, recorremos aos servios
de homens cuja nica ocupao  praticar alpinismo, seja por
esporte ou por lazer. So pessoas que prestam socorro e que
se unem a nossa equipe de resgate nos momentos em que h

algum em perigo nas montanhas, ou com problemas.
- O que parece uma forma bastante descuidada de manter
a defesa do pas! - interrompeu ela, rapidamente.
Um dos generais, que aparentava ter mais de sessenta anos,
 comentou, orgulhoso:
- Estou certo, alteza, de que, se os pallikares esto aqui com
intenes belicosas, nosso exrcito, valoroso que ; que tanto
se destacou em combate por muitas e muitas vezes, expulsar
facilmente esses bandoleiros de nossas terras.
- Tudo isso  muito bonito, general - replicou Ileana. Pelo modo como fala; me d a impresso de que vamos conbater
o inimigo  nossa frente, nas planicies, no velho estilo, agitando
espdas ou com lanas nas mos!
26
Olhou fixamente para os oficiais; e com expresso de menosprezo, e continuo, pintando um quadro de horror:
- Estou interessada em saber o que fariam se os pallikares, ou qualquer outro inimigo; abrissem fogo contra ns, l de seus redutos, no alto das montanhas, onde 
esto e onde no se pode alcan-los facilmente. Como os combateriam, se so mestres nos ardis, na astcia e na malcia? E se, de repente, eles descessem, l de 
seus esconderijos, e tomassem nossas cidades e aldeias, saqueassem nossas casas, nossas colheitas, nossos rebanhos, violentassem nossas jovens e nossas mulheres, 
enfim, pilhassem tudo que estivesse ao seu alcance: o que faria o nosso valoroso exrcito?
Novamente, o silncio pesava, oprimia. Mas Ileana continuou, implacvel:
- Quero que pensem em tudo o que eu disse! Lembrem-se de que os tempos so outros e preparem-me, imediatamente, um relatrio completo das estratgias que pretendem 
usr contra os pallikares, bem como de todas as informaes que pudrem obter sobre eles.
Depois de uma pausa, ela acrescentou, com certa amargura:
- S posso dizer que, se meu pai estivesse bem de sade, se pudesse compreender o que est acontecendo, ficaria; com certeza, horrorizado ao ver como a fatuidade 
e falta de iniciativa so as caractersticas do exrcito de Zokala, do qual ele sempre tanto se orgulhou!
Imediatamente Ileana ergueu-se e, em silncio, saiu da sala; deixando os oficiais olhando uns para os outros, com uma expresso grave nos rostos.
Enquanto seguia pelo corredor, ela refletia que tomara a atitude adequada e que tivera sucesso naquele primeiro encontro com seus oficiais.
Entretanto, estava consciente de que, quando se tratasse de
planejar um ataque ao general Vladilas, a situao no seria
nada fcil; principalmente se ele tivesse; de fato, armas mais modernas que as de seu exrcito.
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Nesse caso; se a inteno dele fosse realmente a de atacar
Zokala, poderia faz-lo facilmente.
No conseguia acreditar que a situao do pas pudesse ter
chegado a tal ponto; por
outro lado reconhecia que, mesmo
 antes de seu pai cair no longo estado de coma, ele fora, de
certa frma, displicente, deixando a organizao do reino 

deriva, confiando em seu Parlamento e em seus oficiais, a
maioria velhos acomodados, positivamente avessos a qualquer
mudana.
Resolveu ir at a biblioteca, local onde costumava ficar sempre que precisava tomar alguma deciso quanto aos assuntos
do pas. Sentou-se  escrivaninha, imaginando o que poderia
fazer para, como num passe de mgica, transformar toda uma
mquina velha, desgastada, em uma nova e atuante, num curto
espao de tempo.
"Isso  impossvel! ", admitiu, levantando-se e andando de
um lado para outro, na tentativa de encontrar uma soluo feliz.
Ocorreu-Lhe a idia de arranjar um marido, conforme desejava
o primeiro-ministro. Entretanto, essa atitude no lhe parecia ser a chave do problema. No precisava apenas de um monarca
 para dirigir o reino em uma situao difcil. Mais que isso, era
preciso boas armas, estratgia militar inteligente e, sobretudo,
o conhecimento do ponto fraco do inimigo.
Tinha plena conscincia de que, se falhasse, se os pallikares
tomassem o pas, ou mesmo se apenas o atacassem, seria grande
a devastao, haveria muitas perdas materiais e humanas e ela
seria, inevitavelmente, responsabilizada pela situao, no s
pelo seu povo, como pelos seus vizinhos.
At podia ouvir o que diriam as cabeas
coroadas dos reinos
com os quais Zokala mantinha relaes:
"Uma mulher governando um pas! Ela deveria ter se casado
h muito tempo. Seu marido teria introduzido novas ideias
e novos mtodos e, com certeza, possuiria um exrcito mais bem
treinado e armado".
Com a cabea latejando, ela parecia ouvir os comentrios de
escrnio que se faziam a seu respeito.
Reconhecia que deveria ter se interessdo por espingrdas;
rifles e outras armas de fogo mais modernas e que deveria tr se preocupado com as condies de defesa de seus exrcitos.
H dois meses, ela havia assistido s manobras e desfiles, dos regimentos de soldados que marchavam em frente ao palcio: Fcara impressionada com a imponncia do 
desfile, com as bandas marciais que tocavam entusiasticamente e a cavalaria que vinha a seguir. As bandeiras do pas; as flmulas tremulando ao vento, a formao 
das trpas; todo o espetculo fora muito comovente:
Naquele momento, entretanto, percebia que tudo no passava de embuste. Ela e o pai no deveriam ter admirado apenas a beleza, o esplendor de suas foras armadas; 
era necessrio que tivessem exigido melhor armamento para defesa e ataque.
Era evidente que todo o material blico de que dispunhm era antiquado e que, possivelmente, no estivesse nem bem conservado. Os canhes, que eram puxados  frente 
do desfile, por dois cavalos magnficos, com certeza s serviriam para disparar uma salva de tiros, em saudao ao monarca.
Lembrava-se, inclusive, de que havia poucos canhes disponveis e que seu pai nunca fora muito exigente quanto ao controle do que era gasto com a defesa do pas. 
E, infelizmente tudo indicava que se estava gastando mais em uniformes e cavalos do que em armas e munies.

E o que realmente agravava o quadro era a perda do coronel Bartik. Ileana sempre tivera  impresso de que ele no ra levado muito a srio pelo pai e pelos ministros 
mais importantes, e que chegava mesmo a ser alvo de brincadeiras:
- Os russos tm espies em toda a parte - ela ouvira o coronel dizer uma vez. - Entretanto, o cu  testemunha, a
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maioria dos pases preferiria falar abertamente sobre seus planos do que ter esses agentes por toda a parte; espiando embaixo das camas e ouvindo atrs das portas.
Naturalmente, um estrondo de risos ecoara pelo salo e o
coronel havia continuado:
- A nica vantagem de toda essa curiosidade, do nosso
ponto de vista,  que muitos dos agentes secretos do Czar so
em geral, lindas mulheres; e  sempre um prazer contar segredos de Estado aos seus ouvidos delicados!
Sua observao causaria novas risadas e um general, a quem
Ileana sempre havia considerado uma pessoa fleumtica e pachorrenta, acrescentava:
- Eu, pessoalmente, no tenho segredos e duvido que mesmo
a mais linda e mais astuta russa possa achar algo digno de
investigao em Zokala!
Na poca, tal afirmao fora recebida com aplausos; naquele
momento, entretanto, Ileana via como todos estavam fora da
realidade, parecendo viver em um reino de tolos.
Os pases balcnicos menores sempre viveram amedrontados,
temendo a invaso dos pases maiores. Dobruja , por exemplo,
sempre fora atacada, ou pela Romnia ou pela Rssia;
Montenegro sempre fora cobiada tanto pela Bsnia como pela Srvia.
"Como pudemos ser to cegos, a ponto de no notarmos que
Zokala poderia ser conquistada, vindo a ser apenas uma pluma
no capacete da Hungria ou da Romnia? ", pensava Ileana.
Continuou andando de um lado para outro, ansiando poder
 falar sobre toda a situao com algum que a entendesse, que
comprendesse o perigo que parecia to iminente.
Mas quem seria esse algum?
Os generais jamais iriam admitir que haviam sido relapsos
e os polticos no entendiam nada de assuntos blicos.
"Dve haver algum que eu possa consultar", pensava ela,
j quase em desespero:
Novamente, afastou de seus pensamentos a idia de se casar.
No restava a menor dvida de que um marido no poderia compreender os problemas do pascomo ela prpria.
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#31 no incio
t- nem sewira
ao exrcito d- se prprio pas, ere I-em-efe
- honorrio de um regimento, e no posstifa =e ia: de
seus dois irmos mais velhos.
Havia tambm um outro pretendente, o prncipe Georgo; 
da Macednia; no entanto, ele era muito mais conhecedor de pintura, artes e histria antiga do que de qualquer assunto ligado a guerra.
 Pensando em dezenas de outros candidatos  sua mo, Ileana
chegou  mesma concluso, exceto, talvez; o prncipe Ivan:
Por outro lado, ele era russo e queria lev-la para seu pas,
para morar em suas vastas propriedades, onde reinava com

muito mais luxo, poder e opulncia do que qualquer outro.
Mais uma vez, concluiu que tinha de fazer tudo sozinha. Mas
a questo era: fazer o qu?
Repentinamente, porm, ocorreu-Lhe uma idia.
As nicas pessoas que poderiam Lhe dar alguma informao
sobre os pallikares seriam os alpinistas, que, conforme disseram, costumavam auxiliar o exrcito em qualquer atividade nas montanhas.
Ileana conhecia a maioria deles, pois j a haviam acompanhado quando praticava alpinismo e sempre garantiram sua
segurana nas montanhas.
 Como se a idia fosse uma luz brilhando na escurido, ela
saiu da biblioteca, foi para o salo principal, chamou dois lacaios e enviou-os para direes opostas.
Um foi at os estbulos selar trs cavalos; enquanto o outro
foi chamar os dois cavaleiros que costumavam escoltar Ileana
quando ela cavalgava.
Logo depois, os dois homens chegaram e, enquanto saudvam
a princesa com muito respeito e elegncia, ela lhes disse: - Vamos sair pelos arredores e podemos demorar. Avisem
os seus familiares que, provavelmente, voltaremos muito tarde.
Em poucos minutos; os trs j se achavam a caminho e
Iliana; enquanto deixava para trs o palcio, refletia que,
se os palacianos a vissem, certamente desaprovariam sua atitde; Sempre achavam que ela deveria sair escoltada por uma
tropa da cavalaria e que, alis, princesas e rainhas deveriam
msmo era viajar em carruagens, com uma dama de companhia
sentda  sua frente.
Embora o sol estivesse quente, ela no havia se preocupado
em trocar seu traje de montaria, semelhante a um uniforme
de cossaco, por um traje mais leve. Apanhara apenas um gorro
de pele de zibelina, que emoldurava lhe o rosto, fazendo realar sua pele acetinada e o brilho de seus olhos.
- Para onde vamos, alteza? - perguntou o capito Heviz,
enquanto se afastavam do palcio.
- Tentaremos fazer umas exploraes e ver se descobrimos
alguma coisa sobre os pallikares - respondeu ElIIeana, refreando
Sat para que o capito pudesse ouvi-la.
O outro cavaleiro, capito Pokal, comentou:
- Parece muito excitante!
- Espero que seja - respondeu ela. - Porque ns trs
teremos de descobrir o que nossos generais, lamentavelmente,
deixaram de fazer.
- Ouvi falar sobre os pallikares durante muitos anos 
disse o capito Pokal. - Creio que todos esto exagerando um
pouco em seus temores, somente porque eles se estabeleceram
nos arredores.
- Por que diz isso?
 - So apenas um grupo de bandidos.  tolice pensar que
tm interesse em conquistar um pas como o nosso! O que
desejam mesmo  roubar o que puderem, conseguir comida, que
 abundante nas montanhas nesta poca do ano, e, claro, se
encontrarem, tambm ho de querer mulheres bonitas:
Imediatamente, porm, como se percebesse que falara demais,
o capito Pokal tossiu, numa tentativa de esconder o constrangimento.
Ileana respondeu apenas:

- J ouvi essa mesma histria. Entretanto, considero muito estranho que eles resolvessem acampar no Monte Bela. Tal fato me sugere que so em grande nmero.
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Como os dois capites pareciam no ter entendido, ela explicou:
- J escalei o Monte Bela e sei que do outro lado dele h um vale muito bonito, mas quase inabitado, exceto por alguns pastores e caadores. Sempre considerei que 
aquele lindo vale deveria merecer mais nossa ateno. Nossa preocupao sempre foi a de estender nossos limites para o norte, porm o sul  mais quente. H abundncia 
de gua, e a nica dificuldade seria a comunicao entre esta parte onde estamos e o vale.
- E existe um meio de se atingir esse local? - perguntou o capito Heviz.
- Sim, claro. Chega-se ao Monte Bela pela estrada que vai  Bulgria - respondeu ela, lembrando-se da ltima vez em que passara por l, h dois anos, quando viajara 
com o pai.
Eles haviam visitado a Bulgria, onde foram recebidos com muita pompa e muita cerimnia, a despeito de a monarquia naquele pas no estar muito estvel.
Era bvio que, envolvido com tantos problemas polticos, aquele era um pas com o qual Ileana no poderia contar, caso viesse a precisar do auxlio dos pases vizinhos.
Era inteligente o bastante para perceber que, se tivesse realmente que lutar contra os pallikares, ou se eles lhes causassem problemas, com certeza a ustria, a 
Romnia ou a Srvia se envolveriam tambm e, sob o pretexto de restabelecer a ordem e expulsar os invasores, ajudariam o povo zokala, mas o segundo passo seria anex-los 
a seu prprio pas.
"Jamais permitirei que isso acontea! ", ela pensou, decidida, embora ainda no soubesse como poderia faz-lo.
Depois de cavalgarem durante algum tempo, chegaram ao sop do Monte Bela, que ficava numa cadeia de montanhas, no muito longe da capital do pas e que formava uma 
barreira, verdadeira proteo natural para Zokala.
Entre as rochas cinzentas, aos ps da montanha, havia vrias casas, onde moravam os homens que costumavam escalar os altos cumes, desafiando a montanha e desvendando-lhe 
os segredos.
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Eram muito fortes, sadios, de aspecto agradvel e muito competentes. Sempre que se aventuravam montanha acima,  procura de um animal extraviado ou para socorrer 
algum, no se machucavam nem jamais deixavam de ser bem-sucedidos.
E Bela no era uma montanha fcil de ser escalada. Alm de muito ngreme, erguendo-se abrupta da plancie, resultara de erupo vulcnica, muitos e muitos sculos 
atrs, e em algumas partes as pedras eram lisas demais, sem possibilidades de se apoiar os ps.
Fora o alpinista Olav quem ajudara a princesa a escalar a montanha; ele era o mais velho e o mais experiente deles, extremamente respeitado no pas. Sem dvida, 
era a pessoa ideal para ajudar Ileana naquele momento.
Logo chegaram  sua pequena casa, branca, com o telhado muito agudo, coberto com ardsia negra. O capito Herviz desmontou e bateu  porta.
A esposa de Olav atendeu e, vendo a princesa, inclinou-se respeitosamente e foi logo chamar o marido.

Ele veio em seguida, esfregando os olhos, como se tivesse acordado h pouco.
Possivelmente, imaginou Ileana, ele devia ter estado ocupado durante a noite, procurando alguma ovelha nas montanhas, talvez presa nos rochedos, sem poder descer, 
ou talvez lutando com guias, que costumavam carregar os cordeiros novinhos.
Encantado ao ver a princesa, o homem correu ao seu encontro, dizendo:
- Que prazer v-la aqui, alteza! Faz muito tempo que no nos d o prazer de vir escalar a montanha! Espero que eu possa, mais uma vez, ajud-la a chegar a um dos 
altos picos, de onde se pode ver quase que o mundo todo.
Ileana sorriu. Gostava do modo lisonjeiro, mas simples, de Olav falar.
- Tenho negligenciado essa modalidade de esporte, perdoe-me. Mas, agora, preciso de sua ajuda.
- Minha ajuda, princesa?
Ileana fez um sinal e o capito Heviz desmontou e foi at
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Sat. O belo animal no gostava que ningum o tocasse e tentou refugar, mas a princesa controlou-o e desmontou tambm.
Em seguida, dirigiu-se a Olav e, sentando-se num tosco banco de madeira, disse-lhe:
- Creio que voc pode imaginar o que me traz aqui.
-  sobre eles, no? - disse o alpinista, indicando com o polegar a direo do pico da montanha.
- Ningum pde me dar informao alguma sobre eles, exceto que esto l - confirmou Ileana. - Quero saber quem e quantos so.
-  difcil calcular quantos, alteza; mas so muitos, mesmo! Ela franziu as sobrancelhas. No estava certa de que Olav
sabia pelo menos contar, porm considerava-o um homem sensato. E o que ele dizia, naquele momento, no era bom sinal.
- Como esto instalados?
- Esto acampados em tendas e nas cavernas.
- E o que fazem? Olav sacudiu os ombros.
- Caam cabras monteses e praticam corridas com seus cavalos.
- Cavalos? Tm cavalos?
- Um grande nmero deles, alteza.
Ileana ficou em silncio, perplexa com o que acabara de ouvir. Jamais aquilo lhe ocorrera e constatou que no tinha mesmo muito conhecimento da vida.
Lembrou-se de ter ouvido, h muito tempo, que os pallikares costumavam atirar em faises, montados em seus cavalos, a todo galope: Seus animais eram famosos, no 
s pela beleza, mas tambm por serem resistentes e muito valentes.
Olav interrompeu seus pensamentos, comentando:
- Os pallikares so excelentes cavaleiros. Vi muitos deles correndo no Vale Bela. Seus animais so maravilhosos! Muito velozes, alteza! Se os visse, iria gostar 
muito.
Ileana olhou a montanha que se sobressaa, majestosa, parecendo to calma, transmitindo paz. Duas guias sobrevoavam o alto cume, graciosamente, como que pairando 
no ar.
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- Acompanhe-me at o alto da montanha, Olav - disse ela, resoluta. - Quero ver o que est acontecendo do outro lado.
Um enorme sorriso de satisfao iluminou o rosto do homem e seus olhos brilharam.
- Vossa alteza deseja ir agora?

- Imediatamente!
Ele entrou depressa em sua casa, para apanhar cordas e todos os outros equipamentos para uma escalada segura.
-vouescalar a montanha com Olav - disse ela, indo ao encontro dos dois capites.
Surpresos, os cavaleiros ficaram em silncio durante um instante, at que o capito Heviz protestou:
- Vossa alteza no deve arriscar-se assim!
-  muito seguro; no se preocupem. Devo descobrir por mim mesma o que o exrcito no foi capaz de fazer.
- Mas, alteza,  muito perigoso! Suponha que esses bandidos a capturem. podem at. mat-la!
- No fariam isso! E, j que estarei acompanhada s por Olav, eles pensaro que somos simples alpinistas praticando um esporte muito saudvel. Como sabe, muitos 
turistas costumam fazer isso no vero.
Escalar o Monte Bela era, de fato, muito comum naquela poca, e Ileana no se surpreenderia se encontrasse outras pessoas no percurso. Muitos profissionais costumavam 
acompanhar aprendizes at as partes mais baixas e menos perigosas, de onde se tinha tambm uma vista maravilhosa do vale.
Sem ouvir mais nenhum argumento dos dois acompanhantes, ela entrou na casa do alpinista e tirou seu casaco. A esposa de Olav o enrolou, em um pedao de musselina 
muito limpo, e o deu para o marido, que o ps nas costas, sobre a mochila.
Ileana sabia que, mais tarde, iria precisar daquela roupa, pois, embora se comeasse a escalada sob um sol radioso, muito quente, nas alturas o tempo quase sempre 
mudava e costumava fazer muito frio.
Trocou tambm suas botas de montaria pelos sapatos prprios para alpinismo, que deixava guardados em casa de Olav, e
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quando comearam a subir, embora j fizesse muito tempo que no praticava, Ileana estava muito feliz. Sentia-se como se tivesse asas,  medida que se afastava do 
solo e ia conquistando as alturas.
Ao alcanarem a parte rochosa, foram bem devagar, pois havia poucos lugares para apoiarem os ps. Olav ia  frente, e avanava como se estivesse subindo por uma 
escada. Ileana, presa a cordas, seguia-o e, como era bem experiente e agia com muito cuidado, conseguiram vencer a montanha com relativa facilidade.
Depois de pouco mais de uma hora, j estavam a uma boa altura, de onde se podia ver o outro lado do vale. O silncio era cortado apenas pelas batidas do martelo 
de Olav, prendendo ganchos e pregos nas rochas.
Sem conversar, eles prosseguiam. As guias, sobrevoando suas cabeas, pareciam ser os nicos seres viventes acima deles, naquela parte das montanhas.
J bem perto do topo, Olav parou e puxou as cordas que prendiam Ileana, que logo chegou ao seu lado.
Da salincia do rochedo em que estavam podiam ver, de um lado, o pico da montanha que se erguia muito reto, e, do outro, todo o vale. Ali, a montanha era bem menos 
ngreme e seria muito mais fcil escal-la.

Abaixados, para que suas silhuetas no pudessem ser vistas facilmente, eles podiam tambm avistar muitos homens, que pareciam formigas, l no vale, andando de um 
lado para outro, em grande atividade.
Olav estava certo: havia muitos, muitos deles. Ileana ficou impressionada com o nmero de tendas armadas, todas grandes, de cores brilhantes, que praticamente cobriam 
toda aquela parte do vale.
Os cavalos, mais do que as tendas, chamaram a ateno dela. Havia centenas deles na plancie; muito mais do que imaginara.
Viu tambm grandes canhes e, mesmo quela distncia, podia-se calcular que eram maiores do que os de seu exrcito, todos eles puxados por seis cavalos. Ileana conseguiu 
contar
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dez canhes, que estavam sendo usados para treinamento dos animais; havia, porm, muitos outros em vrias posies.
Alguns homens apenas olhavam esse treinamento; ela e Olav observaram que cada um carregava um rifle s costas. com certeza, tambm deveriam portar pistolas e facas, 
escondidas na faixa ao redor da cintura.
Horrorizada com tudo o que via, Ileana prendeu a respirao por uns segundos.
Pensava em dizer a Olav que deveriam descer, quando, sem saber de onde, surgiram alguns homens  frente deles, como que materializados de repente.
Eram altos, fortes, com suas armas reluzindo ao sol e, embora estivesse quente, usavam agasalho de pele de carneiro e gorro tambm de pele, chamado kalpaks.
Apesar de sentir o corao batendo acelerado pelo susto, Ileana conseguiu aparentar calma e disse vagarosamente:
- Boa-tarde! Como vem, meu amigo e eu acabamos de escalar a montanha!
Ela indicou Olav com a mo e logo percebeu que eles no compreendiam o que estava dizendo. Tentou falar em blgaro, porm no conseguia articular uma palavra sequer 
nessa lngua. Parecia que nunca a havia aprendido.
Um dos homens adiantou-se, dizendo:
- Voc... rapaz?
Ele olhou para a salincia de seus seios, sob a blusa de seda, e Ileana sentiu, com raiva, que ficara corada com a observao.
- No  da sua conta! - respondeu ela. - Moro em Zokala e vouvoltar, agora, pelo mesmo caminho por onde vim.
Ela ergueu-se e Olav fez o mesmo, passando as cordas pelos ombros de Ileana e dando mostras de que estava muito nervoso.
Os homens, entretanto, fecharam os dois em um crculo e o que falava blgaro disse:
- Vem ver general e falar por que estar aqui.
Por um momento, ela quase entrou em pnico. Mas logo refletiu que era aquilo mesmo que queria: conhecer o general Vladilas, falar com ele e saber o que pretendia.
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Alm do mais, podia estar certa de que ele no sabia quem era e, se pensasse tambm que era um rapaz, tanto melhor.
- Gostaria mesmo de conhecer seu chefe - respondeu ela, sorrindo.
Em seguida, voltou-se para Olav, dizendo:
- D-me o casaco.
Ele tirou a mochila das costas, desenrolou o casaco e entregou-o a lleana.

Enquanto se desvencilhava das cordas, ela percebia que os homens no tiravam os olhos dela, curiosos.
Vestiu rapidamente o casaco e achou que estava mesmo parecendo um rapaz. Seus cabelos estavam presos e ela puxou o gorro de pele de zibelina para a frente, encobrindo 
um pouco a testa.
- O que faremos agora, alteza? - perguntou Olav, baixinho.
- Vamos ver o chefe deles. E passe a chamar-me de "senhor". Eles pensam que sou um rapaz.  importante que continuem a pensar assim.
- Podemos ir agora. V  frente que o seguiremos - disse ela ao homem que conversava em blgaro.
Ele se ps imediatamente a caminho; lleana e Olav iam atrs e os outros homens vinham depois.
A descida por aquele lado, embora no fosse fcil, era bem mais suave do que o caminho por onde ela e Olav haviam subido e logo estavam no vale, sem qualquer problema.
Ao se aproximar das tendas que observara l do alto, lleana teve a sensao de que estava prestes a entrar em um vespeiro. Entretanto, imaginando o triunfo que seria 
voltar e dizer aos generais o que havia descoberto, ficou muito feliz, e, ao mesmo tempo, excitada pelo sabor da aventura que iria viver.
Pde ver de perto os canhes puxados por cavalos e verificou que se tratava mesmo de exerccio. Os animais ficavam alinhados e puxavam as pesadas peas de artilharia 
em uma direo, depois em outra.
O homem que ia  frente deles parou em frente a uma das tendas.
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Era a maior delas, bem maior e muito mais impressionante do que parecera l do alto. Suas cores tambm eram mais vivas e leana pensava em encontrar l dentro o 
general Vladilas, sentado sobre tapetes, como algum potentado oriental, usando um turbante e fumando narguil.
- Espere aqui - disse o homem, antes de entrar na tenda.
- Est bem - respondeu Eleana, continuando a observar tudo o que acontecia no vale.
Contou os canhes alinhados e foi seguindo o movimento dos cavalos, como se estivesse vendo uma parada.
Depois, comeou, automaticamente, a contar os homens. Uns estavam sentados  sombra, outros estirados, cochilando sob as rochas. Outros simplesmente caminhavam, 
e ela -reparou que tinham um ar superior, como se tivessem a certeza de que eram invulnerveis.
Eram todos to fascinantes, que Ileana pensou estar vendo personagens irreais, sados de romances de aventuras.
Alguns pareciam gregos, outros, turcos e outros deviam ser dos vrios pases dos Blcs. Todos a olhavam com curiosidade e ela estava absolutamente certa de que 
aqueles homens eram muito fortes. Sem dvida, lutadores destemidos, excelentes, como j fora constatado pelos gregos, por cujo pas eles j haviam lutado.
Repentinamente, ela foi tomada pelo pnico. Imaginou seus exrcitos sendo massacrados por aqueles homens imensos, com todo aquele armamento. Foi ento que ouviu:
- Meu chefe querer ver voc. Favor entrar.
Ele fez um sinal e Ileana entrou na tenda. Olav a seguiu, mas foi barrado  porta.

A penumbra do interior da tenda, em contraste com o sol brilhante de fora, fez com que ela no enxergasse bem por uns segundos. Mas logo seus olhos se acostumaram 
 pouca luz e pde ver um homem sentado atrs de uma mesa, escrevendo.
Ao se aproximar, ele levantou-se, leana sabia tratar-se do general Vladilas, mas ficou surpresa por um momento ao constatar que no correspondia em nada  imagem 
que fazia dele.
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Era um homem muito alto, de ombros largos e extremamente belo. Tinha o mesmo ar de superioridade dos homens a quem comandava e suas roupas no eram nada brilhantes 
nem vistosas. Ileana teve a vaga impresso de que j o vira e com um choque reconheceu que. aquele era o mesmo uniforme usado pelos oficiais do exrcito de Zokala!
Ali, parada  frente do general, ela teve um momento de hesitao, sem saber se deveria ser a primeira a falar. Porm, o general disse:
-  uma surpresa, princesa Ileana, mas estou encantado em lhe dar as boas-vindas!
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Por alguns instantes, Ileana ficou atnita demais para poder responder. Afinal, disse a primeira coisa que lhe veio  cabea:
- Ento, sabe quem sou?
- O general Vladilas respondeu, sorrindo:
-  evidente que sim!
Aps um breve silncio, ele voltou a falar:
- No quer sentar-se? com certeza, deseja tambm beber alguma coisa. Foi uma escalada muito rdua e, segundo me informaram, o fez com extrema percia.
Ele indicou duas cadeiras, que estavam ao lado de uma mesa redonda, bem baixa, e, sem esperar resposta, estalou os dedos. Imediatamente, um homem entrou, trazendo 
uma bandeja com uma garrafa de vinho e dois copos.
Admirada com aquele servio perfeito, semelhante ao que tinha em seu palcio, Ileana sentou-se e, como estava quente ali dentro, afastou o gorro de pele da testa. 
No havia mais necessidade de se fazer passar por rapaz.
O general olhava para ela, como se a analisasse. Depois, sentou-se e serviu o vinho.
Ela estava realmente com muita sede e, alm do mais, tinha que admitir, bem mais nervosa do que imaginava ficar. Bebeu o vinho, achando-o delicioso, e no se lembrava 
de haver provado uma bebida to boa antes.
- Parece-me que havia algum me espionando, enquanto escalava o Monte Bela - ela disse. - Muito bem escondido, por sinal.
O general apenas sorriu e Ileana continuou:
- Havia guias sobrevoando o monte. Acreditei que no houvesse ningum por perto.
- As guias so simplesmente um truque.
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- Um truque?
- Sim. Uma guia sempre fica pairando onde h um cordeiro ou outro animalzinho desprotegido que ela possa apanhar.
- Uma idia muito inteligente. E que faz crer que no h ningum por perto, montando guarda - comentou ela, refletindo que esse tipo de esperteza, observao e astcia 
os oficiais de seu exrcito no possuam.

Ento, ela prosseguiu rapidamente, como a explicar sua presena naquelas paragens:
- Sempre escalo o Monte Bela.  uma atividade que aprecio bastante. Alm do mais, no poderia deixar de conquistar essa bela montanha que existe em meu prprio pas.
Desejava pr o general um pouco na defensiva, entretanto, apesar de sua pouca experincia, teve a desagradvel sensao de que ele conhecia perfeitamente as intenes 
dela.
Sentado bem  vontade em sua cadeira, ele continuava a olhar calmamente para ela e, logo depois, disse:
- Voc  bem mais bonita de perto do que a distncia!
- Ento, j me viu antes?
- Muitas vezes.
- Como assim? Eu no saio de meu pas h mais de dois
anos.
Novamente, o sorriso do general a incomodava. Parecia-lhe que ele se divertia s suas custas.
- Ento, j esteve em meu pas? - insistiu Ileana.
- Estive na cidade h algumas horas.
- Se  mesmo verdade o que diz, como no fui informada disso?
- No havia razo para que ficasse sabendo. Estive l incgnito.
- Quer dizer que. esteve nos espionando?
- No creio que esse termo seja muito adequado. Digamos que eu estive observando como o pas  governado e como est montado o sistema de defesa.
Ela endireitou-se na cadeira.
- Por que esse interesse?
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Sua pergunta foi muito direta, mas devia faz-la. Era de importncia vital. S depois de uma pausa, o general respondeu:
- O que descobri, com minha visita, ou se preferir, com minha investigao, foi que Zokala  extremamente vulnervel; qualquer pas que queira conquist-lo no precisar 
fazer muito esforo.
Ele falava pausada e claramente, com entonao sempre agradvel. Mesmo assim, Ileana sentiu o corao apertado e conseguiu dizer, com a voz quase inaudvel:
- Ento,  isso que pretende. fazer?
Ela olhou para o general, sem conseguir, no entanto, compreender a expresso que havia em seu rosto e em seu olhar. Embora ele fosse, sem dvida, um belo homem, 
percebia tambm que agia com uma certa dureza, o que o tornava diferente dos outros homens e lhe conferia um ar de autoridade.
Havia nele uma expresso quase cruel, nas linhas de sua boca, na forma quadrada de seu queixo e nos olhos firmes e decididos. Ileana tinha a impresso de que se 
encontrava diante de uma guia, pronta para atacar.
- A resposta para essa pergunta - disse o general Vladilas
-  voc quem tem.
- Eu? Como  possvel?
- Tenho algo para lhe mostrar.
Ele ergueu-se e foi at a entrada da tenda, sendo seguido pela princesa.
L fora, o sol brilhava com tanta intensidade que ela ficou ofuscada e quase no podia ver claramente.

Depois de alguns instantes, ela viu Olav, de p, ao lado da tenda, com uma expresso de ansiedade no rosto. Junto a ele, estavam os homens que os haviam trazido 
da montanha.
Sem pedir licena, o general deixou-a, foi at os homens, dizendo-lhes alguma coisa, que ela no pde ouvir, e voltou novamente para o lado dela.
Olav e os homens entraram na tenda e ela imaginou que iriam dar alguma coisa para ele tomar tambm.
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O general comeou a andar depressa e ela o seguiu, at chegarem ao terreno onde estavam os canhes. Alm deles, havia tambm vrias caixas enormes, centenas delas, 
que certamente deviam conter rifles e munio. Os homens,  volta, carregavam rifles, grandes facas e pistolas s cintas e pareciam ser extremamente fortes.
Todos a olhavam com curiosidade e, pelo brilho que havia no olhar deles, ela percebeu que no os enganara com seu traje de montaria, pensando poder passar por um 
rapaz.
O general nada falava, enquanto iam passando entre as peas de artilharia. De vez em quando, ele parava diante de uma outra arma, que Ileana no sabia exatamente 
o que era.
Ele parecia no ter pressa e, certamente, desejava que ela observasse tudo com ateno.
Afinal, chegaram bem perto do local onde estavam fazendo manobras com as peas mais pesadas e, observando os cavalos que eram ali treinados, Ileana no pde esconder 
sua surpresa.
- Sabia que eles iriam agrad-la - disse o general.
- So realmente maravilhosos! - disse ela, cheia de entusiasmo.
- E so muito fortes. Alis, tinham que ser, visto o trabalho que desempenham.
A ateno de Ileana voltou-se para os grandes canhes, bem maiores e com muito maior poder de alcance do que os do exrcito de seu pas.
Eles continuaram a caminhar em silncio e, quando chegaram perto de um rio, muito raso naquela poca do ano, ela viu centenas de cavalos, todos belos animais, to 
maravilhosos como os que faziam as manobras.
- Onde conseguiu tantos e to magnficos animais? - perguntou Ileana, sem conseguir conter a admirao.
- Eu mesmo os trouxe da Arbia, h alguns anos.
- Ento, so cavalos rabes!
- Estou certo de que sabe que so os animais mais velozes que existem. Mas temos tambm cavalos de outras raas e tenho certeza de que vai apreci-los bastante.
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- Por favor, mostre-me!
- J dei ordens para que tragam alguns deles, mais tarde. Mas, agora, que j viu todo o armamento que tenho aqui, gostaria de conversar com voc.  melhor irmos 
para a tenda.
Seu modo de falar no admitia recusas. Era como se no lhe importasse o que ela pensava ou sentia.
No caminho de volta, o general Vladilas ainda parou algumas vezes para indicar diversos canhes enfileirados, em vrios pontos estratgicos, num outro lado do terreno, 
os quais Ileana no havia notado antes.
Tudo o que via deixava-a apavorada. Se ele quisesse atacar Zokala, o faria com a mesma facilidade com que se instalara no vale.

Para alm da tenda, havia ainda centenas de homens, rifles e outras armas, vrias carroas e muitos cavalos.
Alm do mais, o caminho de acesso  cidade no estava muito distante, talvez a uns dois quilmetros ou pouco mais. Pareceu-lhe que o general havia melhorado a passagem 
que chegava at a estrada, deixando-a mais larga. Desse modo, seria faclimo atacar Zokala pelo sul.
Mais uma vez, sentiu-se furiosa com os homens da inteligncia de seu pas, por terem sido to negligentes, por no saberem que todo aquele imenso bando estava em 
suas terras.
Em silncio, ela continuou andando, enquanto preparava mentalmente uma severa reprimenda para os seus oficiais, quando regressasse ao palcio. Iria, inclusive, convocar 
uma reunio de emergncia, ainda naquela noite, mesmo que fosse bem tarde.
A situao, sem dvida, inspirava cuidados e ela jamais pudera imaginar que estivessem em posio to perigosa.
Assim que entraram na tenda, Ileana disse:
- Aprecio muito sua hospitalidade, general, mas sei que compreende que no posso me demorar mais, No devo regressar muito tarde ao palcio, o que deixaria todos 
preocupados. Mesmo tendo Olav como guia, a montanha pode ser muito perigosa ao escurecer.
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- Sim, sei disso. E, justamente por estar entardecendo, insisto em que fiquem aqui como meus convidados.
-  muita gentileza de sua parte, porm receio que seja impossvel.
- Eis a uma palavra que no compreendo e que sequer existe em meu vocabulrio. Porm, se deseja mesmo voltar,  evidente que a mandarei de volta. Antes, porm, 
quero que oua a proposta que tenho a lhe fazer, e peo que a considere cuidadosamente.
- Claro, general - ela falou, sorrindo. - Ouvirei com prazer sua proposta.
Ele fez um breve silncio, sentou-se na borda da escrivaninha e olhou para ela, novamente com aquele ar de autoridade, to senhor de si.
A escrivaninha, em cuja borda ele se sentava, era um mvel porttil, dobrvel, comum em acampamentos militares, devido  facilidade com que podia ser transportada. 
Ao lado, havia tambm um arquivo militar, cujos cantos eram arrematados com lato e o cho era todo coberto com lindos e valiosos tapetes.
Por tudo que via, Ileana podia concluir que, certamente, o general gostava de conforto e que admirava as coisas belas.
- Quando, recentemente, vim a Zokala - ele comeou a falar -, fiquei realmente impressionado, ou melhor, chocado, com as condies do exrcito.
- O que quer dizer com isso? - perguntou ela, ofendida.
- Os canhes so antigos, o treinamento militar, ultrapassado, os rifles e outras armas tambm so obsoletos. A nica coisa que se salva  a cavalaria - respondeu 
ele, sarcstico.
- Essa pode ser a sua opinio, general. Somos, porm, uma nao pacfica e gozamos de timas relaes com nossos vizinhos!
- Quem lhe disse isso? Seu ministro do exterior? Ele j deveria estar aposentado h muito tempo!

Embora a opinio dele fosse exatamente a sua, Ileana no iria admitir isso e sentia-se extremamente aborrecida com todas aquelas crticas ao governo de seu pas. 
com voz fria e cortante, como era capaz, quando queria, ela disse:
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-  muito fcil, general, achar defeitos. E, como meu pai se encontra doente h muito tempo, imaginei que seria um erro estar fazendo muitas mudanas.
- Est querendo dizer que espera que ele morra para assumir o trono e que, a, ento, governar a seu modo?
- Isso, general,  assunto que s a mim diz respeito.
- Acontece que diz respeito a mim tambm.
- A voc?
- Sim! - a voz dele era calma. - E  exatamente sobre isso que gostaria de conversar com voc.
- No posso entender aonde quer chegar.
- Nesse caso, deixe-me explicar.  impossvel governar seu pas sem um marido a seu lado; e sei que seus ministros j lhe falaram sobre o assunto.
com um ligeiro sorriso e um tom levemente sarcstico, ele continuou:
- Sei tambm que voc tem uma grande lista de candidatos a marido, e despediu todos eles; atitude que considerei muito sensata, pois nenhum serviria mesmo para governar 
um pas
como o seu.
lleana estava estupefata e no conseguia esconder seu assombro.
- Como pde saber. tudo isso?
- No  nada difcil. E, como voc no conseguiu arranjar para o seu reino o que ele mais precisa, um rei,  que estou aqui!
- No estou entendendo.
-  uma escolha simples. Case-se comigo e eu asseguro a defesa de Zokala contra qualquer tipo de inimigo; ou ento, eu mesmo invadirei seu pas e o dominarei!
- Voc deve estar louco!
- Pelo contrrio. Estou muito lcido e sendo bastante sensato.
- Ns no temos inimigos. E, embora reconhea que nosso exrcito precise de alguma. modernizao, estou certa de que nossos soldados. lutaro valentemente contra 
qualquer tentativa de invaso.
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A voz de Ileana revelava-se muito confiante. Entretanto, no mesmo instante, lembrou-se de todo o armamento de que o general dispunha... e o que era pior: ele j 
estava dentro de seu pas.
Como se pudesse ler seus pensamentos, ele disse:
-  exatamente o que est pensando! Haveria um massacre sangrento, sem precedentes na histria de Zokala!
- Se pensa desse modo, como pde planejar algo to horrendo?
- A escolha  sua. Case-se comigo e todas as ameaas que pairam sobre Zokala se dissiparo.
- Ameaas? Que ameaas?
- J deveria estar muito bem informada, se tivesse um bom Servio de Inteligncia, de que a ustria est forando a Hungria a invadir Zokala. E, em minha opinio, 
isso acontecer no dentro de alguns meses, mas de poucas semanas.
- No posso acreditar no que est dizendo!
-  a verdade! Voc deve saber que os austracos so muito ambiciosos.

O tom de voz dele era calmo, preciso, o que tornava a narrativa mais impressionante, e Ileana foi se conscientizando da dramaticidade da situao. Aos poucos, foi 
tendo uma sensao de que o general Vladilas estava certo.
Ela pde at mesmo lembrar-se de que o embaixador hngaro, o conde Rziliki, na ltima vez em que haviam se encontrado, no fora to cordial como de costume. Eles 
conversaram mais sobre cavalos e sobre outros assuntos que interessavam a ambos, do que sobre os negcios de Estado. De fato, ele no parecia estar muito  vontade 
e fora bem mais formal.
Como todo hngaro, o conde costumava ser muito galante e, nessa ocasio, ela reparara que ele no havia feito nenhuma referncia  sua beleza nem  sua habilidade 
de amazona. Fora at mesmo reticente. Na certa, ele j teria a invaso de Zokala em mente.
- Alm do mais,  bvio que a Hungria tem muito mais interesse nessa invaso do que a Srvia ou a Romnia - continuou o general. - E, a menos que os impeam de faz-lo, 
tomaro o pas quase que sem resistncia alguma.
- O que o leva a fazer tais suposies?
- H muitos homens no exrcito de Zokala que so descendentes de hngaros e, para a Hungria, isso  muito importante; mais do que para qualquer pas da Europa.
Mais uma vez, Ileana se surpreendeu com o fato de ele estar a par de toda a situao. Por outro lado, recusava-se a acreditar no que estava ouvindo, dito to calmamente, 
por aquele homem ali  sua frente.
Decidida, ela se levantou, dizendo:
- Ouvi com ateno tudo que me disse e creio que o melhor seria eu voltar para o palcio, onde poderei pensar no assunto com mais calma. Discutirei a situao com 
meus ministros e entrarei em contato com voc assim que tiver uma resposta. Talvez, dentro de vinte e quatro horas.
Assim que Ileana terminou de falar, Vladilas deu uma risada sonora, que ecoou pela tenda.
- Eu seria muito tolo se, agora que a tenho aqui, a deixasse partir sem que tivesse se decidido. De qualquer modo, eu havia planejado traz-la aqui hoje ou amanh. 
Quando deixou o palcio hoje cedo, meus homens estavam prontos para interceptarem-na no caminho. No entanto, para surpresa deles e minha, voc resolveu escalar a 
montanha, o que me facilitou muito a tarefa.
Os olhos de Ileana aumentaram com a surpresa. Respirando fundo, ela perguntou:
- Ento. sua inteno era raptar-me?
- Essa  uma palavra muito forte e mesmo dramtica. Eu prefiro dizer "escolt-la".
- Jamais ouvi coisa to desagradvel. S posso considerar sua atitude intolervel, indigna e vil... prpria mesmo de um. 
Ela parou de falar bruscamente, percebendo que estivera prestes a ser rude demais, o que seria um grande erro, uma vez que estava em poder daquele homem.
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- Prpria de um bandido? - concluiu o general. - Est certa, princesa, sou um bandido, um mercenrio.  o que tenho sido durante anos a fio. Entretanto, meus homens 
tm sido muito teis!
- J ouvi falar sobre os feitos valorosos de seus homens na Grcia - admitiu ela. - Porm l vocs lutaram para defender um trono, e no para destru-lo.

- No estou lutando para destruir o trono de Zokala. Pelo contrrio, quero preserv-lo, tornando-me seu marido e o rei deste pas.
Incapaz de se controlar por mais tempo, lleana falou, com raiva:
- No tenho o menor desejo de casar-me com quem quer que seja! Muito menos com voc!
O general no se mexeu. Apenas suspirou e disse:
- Muito bem, tomarei seu pas  fora e no esperarei seu pai morrer para ser coroado rei. Dessa forma, poderei governar o pas a meu modo.
- Ser um ato monstruoso, completamente fora de tica e sem razo de ser!
- No penso assim. Posso lhe dar dzias de exemplos de fatos semelhantes ocorridos na histria; mas prefiro no me deter em tolices. A situao  urgente e no posso 
me dar ao luxo de esperar. Ou melhor, Zokala no pode esperar!
- No acha que est exagerando?
- E voc, est preparada para correr o risco? O exrcito hngaro no  moderno como o meu, nem seus soldados to bem treinados como meus homens. No entanto, pode 
estar certa de que tero muito pouco trabalho para liquidar seus soldados de brinquedo.
lleana ergueu-se, indignada.
- Isso  intolervel! No ficarei mais aqui ouvindo seus desaforos!
Virou-se e saiu da tenda, impetuosamente.
L fora, viu vrios cavalos, todos magnficos, e lembrou-se
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de que o general havia prometido trazer alguns dos purossangues rabes para que ela examinasse.
Sem hesitar, agindo impulsivamente, montou um soberbo garanho que estava ali, bem perto dela, e saiu a galope, quase como se tivesse asas.
Sua atitude foi to repentina, que o homem que segurava o animal soltou as rdeas sem nem mesmo compreender o que estava acontecendo.
Ileana tinha noo do caminho a seguir, pois prestara bastante ateno quando estava no topo da montanha e ia galopando sem encontrar obstculo algum, principalmente 
porque o garanho era esperto e avanava com muita velocidade ao seu comando.
Em questo de segundos, j estava bem distante, mas continuou a todo galope, temendo ser alcanada.
Logo, porm, seus temores aumentaram, ao ouvir o barulho de batidas de cascos de cavalo. Mesmo sem olhar para trs, sabia que o general a estava seguindo, na tentativa 
de poder alcan-la.
Apesar disso, continuou galopando, confiante, pois estava convicta de que ningum, em todo pas, seria capaz de super-la, especialmente pelo fato de estar montando 
um cavalo rabe, que tinha todas as qualidades de um puro-sangue em grau superlativo.
Ela ia vencendo a distncia to velozmente que seu gorro de zibelina foi arrancado pelo vento. Mas no se preocupou com isso; desejava apenas ter um chicote, para 
fazer o cavalo disparar ainda mais.

No tardou muito e ela pde perceber que o general estava mais perto. Fustigou rapidamente o animal, desesperada para chegar  segurana de seu palcio, mas logo 
o viu cavalgando quase a seu lado.
Ainda tentou, por todos os meios possveis, evitar que ele a alcanasse; entretanto, em poucos segundos, os animais estavam juntos, quase colidindo um com o outro.
E, de repente, o general fez algo inacreditvel, que exigia
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muita percia de qualquer cavaleiro: enquanto ia a todo galope, arrancou Ileana da sela de seu cavalo e a colocou em seu colo.
Por um momento, ela se sentiu suspensa no ar e, depois, com um baque surdo, se viu sentada  frente do general. Percebeu que, para suprema humilhao sua, o general 
estava chamando o cavalo que ela havia montado.
Imediatamente, deu-se conta de que ele teria feito o animal voltar com um simples assobio, apenas, sem o menor esforo. No entanto, no o fizera; quis provar que 
era melhor cavaleiro que ela, que a podia dominar! E ali estava ela, a princesa Ileana, nos braos de Vladilas, o bandido.
Quando j estavam chegando ao acampamento, ela pde ouvir os gritos de vivas dados pelos homens que saudavam o chefe. O chefe que se vangloriava de sua autoridade, 
que subjugava a mulher que ousara desafi-lo.
O general desmontou e, ainda com Ileana nos braos, entrou na tenda.
Antes que ele a soltasse, ela disse, furiosa:
- Eu o odeio! Prefiro mil vezes morrer, a aceitar um homem do seu tipo para marido!
- Voc no vai morrer, mas seu povo sim.  isso que deseja, princesa? - disse ele rudemente, como se a julgasse uma criana que no sabia o alcance de suas palavras.
Ileana no respondeu e ele a colocou no cho. Percebendo que suas pernas tremiam, parecendo incapazes de sustent-la, ela sentou-se numa cadeira.
O general serviu-lhe vinho e, depois de tomar de seu prprio copo, disse:
- Creio que j podemos parar com nossas brincadeiras. No estou disposto a ouvir tolices. Vamos nos casar hoje mesmo e amanh entraremos em Zokala,  frente de minhas 
tropas, e anunciaremos ao povo que esto salvos e protegidos.
- Pensa, realmente, que eu vou concordar com. com. isso?
Ela desejava que sua voz soasse firme e desafiadora, mas, mesmo para si prpria, pareceu insegura e sem nenhum efeito.
- No vamos mais questionar se voc concorda ou no. J est tudo decidido e arranjado. Temos um padre no acampamento que sempre viaja comigo. Ele nos espera dentro 
de uma hora.
Ileana ameaou abrir a boca para uma recusa categrica e intempestiva, mas ele nem se deu ao trabalho de considerar, e continuou:
- No tenho inteno de ver minha noiva vestida como est agora, por isso, pode ir at sua tenda, onde encontrar um traje de gala, grego. Uma vez que o padre que 
nos unir em matrimnio  grego, achei que seria o mais apropriado.
- Se imagina que vou trocar minhas roupas s para agradlo est muito enganado - retorquiu ela, tentando, mais uma vez, desafi-lo.

- Pretendo casar-me com uma mulher, no com um pseudo-rapaz - respondeu o general, zombando dela. - Quer ir trocar essa roupa? Se no for por sua livre vontade, 
posso lhe provar que sou tambm uma criada de quarto muito experiente!
Ele sorriu, caosta, e, assustada, ela disse apenas:
- Deve reconhecer que no est me tratando como deveria. Tudo isto  ridculo! No acha que seria mais sensato dar-me tempo de pensar sobre o que  melhor para o 
meu pas e tambm para mim mesma?
- Eu sei o que  melhor para Zokala! E, como j lhe disse, nenhum de ns pode se dar ao luxo de desperdiar o tempo.
Ele caminhou para o outro lado da tenda, enquanto ia dizendo, mais brandamente:
- Vamos, v mudar de roupa e tenho certeza de que um bom banho a reconfortar, depois de toda a agitao deste dia.
Desistindo de argumentar com palavras, Ileana levantou-se, enquanto tentava imaginar um novo modo de fugir dali. Devia haver um meio de escapar!
Sem dvida, o general no seria tolo de deixar cavalo nenhum por perto. Alm disso, ele estava mais do que atento e a expresso de seu rosto no a aconselhava a 
fazer nenhuma nova investida impensada.
Erguendo bem a cabea e tentando parecer o mais altiva
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possvel, ela ajeitou discretamente os cabelos que lhe caam nos ombros e passou pelo general com toda a arrogncia que, sem saber como, conseguiu demonstrar.
A tenda principal era ligada  outra que ele lhe indicara e, ao entrar, ela viu duas mulheres que a cumprimentaram com toda cortesia.
Uma delas era ainda jovem, muito bonita, e devia ser grega; a outra, mais velha, parecia blgara.
Certificando-se de que estava a ss com as duas mulheres, Ileana disse em grego:
- Ajudem-me! No quero ficar aqui. Estou sendo forada a tudo isso. Como poderei fugir?
As duas mulheres a olharam surpresas e ela continuou:
-  evidente que as recompensarei muito bem se me mostrarem como posso sair daqui. Tem que haver um meio!
A mulher mais velha pareceu no ter entendido nada e ficou olhando para ela com a surpresa estampada no rosto. A jovem grega, entretanto, respondeu com voz melodiosa:
- Deve fazer tudo que nosso chefe mandar, alteza.  impossvel fugir daqui!
- Tem certeza?
Como resposta, a criada apenas afastou um pouco uma das bordas da tenda, para que Ileana pudesse olhar para fora.
O que ela viu foi argumento mais do que convincente: dois imensos homens, vestindo seus speros casacos de pele, estavam bem  entrada da tenda, em servio de sentinela.
Fechando novamente o pequeno espao, a criada avisou:
- Seu banho est pronto, alteza.
Ao fundo da tenda, havia uma passagem que dava para outra tenda muito menor; era ali o banheiro. No cho, estava uma grande banheira de folha-de-flandres que, sem 
dvida, no era muito pesada para transportar e, para surpresa de Ileana, a gua do banho recendia a perfume de flores dos alpes.
As duas mulheres a ajudaram a se despir e ela se banhou com prazer, pois sentia-se, de fato, precisar refrescar-se, depois da escalada e da insensata cavalgada em 
busca da liberdade.

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Enquanto se enxugava em macias e finssimas toalhas turcas, lembrou-se de que o general lhe ordenara que pusesse o vestido de noiva que escolhera para ela. Novamente, 
uma fria incontida a dominou. Por que ele estava to determinado a se casar com ela? E como ela poderia viver ao lado de um homem que tanto odiava?
Mais uma vez, comeou a sentir que o temor a dominava. Tinha conscincia de que no poderia fazer nada contra aquele homem, que se havia mostrado capaz, forte e 
resoluto.
Por outro lado, um outro novo temor a assombrava: o de que seu povo fosse massacrado. Pela primeira vez em sua vida, via-se totalmente incapaz de resolver a situao, 
de escapar daquele pesadelo.
"Talvez o padre nem seja verdadeiro", pensou. Mas, imediatamente, admitiu que o general, que costumava planejar tudo nos mnimos detalhes, no se sujeitaria a uma 
farsa desse tipo. Tudo seria legal, pois estava claro que ele pretendia ser o rei de Zokala. Ela estava realmente perdida! S a morte a libertaria daquele homem 
odioso!
Mergulhada em tais pensamentos, ela se deixou vestir pelas duas criadas, sem o menor entusiasmo, embora reconhecesse que o vestido era belssimo.
Ela j havia lido que, na Grcia, as moas de qualquer classe social davam um valor inestimvel ao vestido de noiva, que era sempre muito rico e elegante. Geralmente, 
a noiva passava anos bordando-o e o resultado era sempre uma obra de arte, nica, inigualvel.
Outro costume grego era o de a noiva usar um colar, que passava de me para filha, usado no dia do casamento por geraes e geraes e que eram extremamente cobiados 
pelos museus, por serem belssimos e muito valiosos.
O vestido que as criadas lhe colocavam era todo branco, com lindos bordados de pedras brilhantes, que formavam flores coloridas no corpo, nas mangas e na parte inferior 
da saia.
Era to magnfico, que Ileana quase se esqueceu de que
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lhe fora dado pelo general. Admirava-se ao espelho, vendo o quanto aquela roupa lhe assentava bem.
- Esse vestido pertenceu  me de nosso chefe - disse a jovem grega. - Ela era uma linda mulher, alteza.
Ileana permaneceu em silncio, observando o colar que lhe punham naquele momento. Todo montado com diamantes e pedras preciosas, era tambm maravilhoso e fazia conjunto 
com um par de brincos.
Seu cabelo foi arranjado em duas longas tranas, que foram enroladas na nuca, formando um coque. No alto da cabea, a jovem grega lhe colocou uma linda tiara com 
as mesmas pedras preciosas e diamantes do colar, de onde pendia um longo vu, que se arrastava pelo cho, dando a Ileana um ar etreo.
Olhando-se no espelho, ela no se viu a princesa de Zokala, filha do rei Milko, mas uma pessoa que existia apenas na mente do general.
- Eu o detesto! Eu o detesto por fazer tudo isso comigo!
- murmurou, com uma vontade louca de rasgar aquele vestido, de jogar todas as jias no cho e de pisar em tudo.
No entanto, tinha conscincia de que nada que pudesse fazer iria demover o general de seu objetivo.

Por um momento, lembrou-se da conversa que tivera com o primeiro-ministro e chegou a reconhecer que Vladilas reunia as qualidades para ser rei de Zokala. Era, sem 
dvida, um lder que impunha sua presena, que irradiava autoridade e cuja personalidade era to marcante, que seria obedecido sem a menor discusso.
Porm Ileana, ferida em seus sentimentos, se recusava a admitir o que sua razo reconhecia.
"No! Ele  um ladro, um bandido! Eu o odeio! Eu o odeio! ", pensava, desejando gritar, chorar, atirar-se ao cho e negar-se a sair dali.
Entretanto, ainda podia sentir a fora dos braos do general, erguendo-a da sela e deixando-a suspensa no ar por uma frao  de segundo, para depois deix-la cair 
no colo dele.
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"Ainda hei de encontrar um meio de me livrar deste pesadelo", ela pensou, decidida.
Procuraria manter a calma, dominar seu dio e fazer o que o general queria. Enquanto isso, com calma, iria descobrir um meio de fugir dali.
Sim, poderia at mesmo representar a farsa daquele casamento, mas jamais seria a esposa do general Vladilas.
Tremendo de raiva e de frustrao, ela ouviu as duas mulheres elogiarem, admiradas, sua beleza naquele traje nupcial. Estavam, sem dvida, orgulhosas, por haverem 
contribudo para deixar a noiva to linda.
Logo em seguida, as duas criadas foram at a lona, que servia de porta, e afastaram-na para a princesa passar.
Por uns segundos, Ileana ficou imvel, sentindo-se tomada de um imenso pavor e com uma vontade louca de descobrir um meio de escapar.
Sem vislumbrar a menor esperana, fez novamente um esforo supremo e ergueu a cabea. Estava decidida a parecer mais arrogante do que nunca e faria de tudo para 
no dar ao general o prazer de ouvir qualquer splica de sua parte.
Ao entrar na outra tenda, percebeu que ele j a esperava, Tambm havia trocado seu uniforme comum por um de gala igual aos que os oficiais do exrcito de Zokala 
usavam em cerimnias mais formais.
 O general usava uma tnica militar, branca, cala justa, 
vermelha, com listas azuis dos lados. Seu peito era coberto de medalhas e condecoraes, algumas, verdadeiras jias.
Ileana pensou, com menosprezo, que a maioria delas deveria ser roubada.
Na campanha pela Grcia, ele deveria ter sido condecorado, naturalmente, porm estava certa de que qualquer outro pas jamais haveria de dar medalhas a um bandido, 
um ladro, um fora-da-lei.
Estava convicta de que o general no passava de um impostor, um velhaco em quem no se podia confiar e que se aproveitaria de qualquer situao da qual pudesse tirar 
alguma vantagem.
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E era com algum assim que ela iria, dentro de poucos instantes, se casar! Um homem que mantinha, no s a ela, mas tambm seu pas sob a mira de seus canhes.
Por uns momentos, eles se olharam. O general foi o primeiro a dizer:

- Meus cumprimentos, alteza! Devo dizer-lhe que est maravilhosa! Fica muito melhor vestida como mulher do que fingindo-se de homem.
- No estive fingindo, nem jamais desejei parecer aquilo que no sou - respondeu Ileana secamente.
Ele pareceu perceber a insinuao, mas deu apenas um leve sorriso irnico. Controlando-se para no lhe dar uma bofetada, ela disse:
- Est mesmo disposto a levar adiante esta farsa?
- No  uma farsa! Entretanto, como essa provao no  apenas sua, mas minha tambm, sugiro que bebamos uma taa de champanhe, o que nos far relaxar um pouco.
Ileana desejaria recusar, mas, na verdade, necessitava de uma bebida, pois sentia-se desfalecer.
Foi ento que se lembrou de que s tivera seu desjejum, e que no comera mais nada durante o dia. Resolvera escalar a montanha impulsivamente e pretendia voltar 
logo para o palcio.
Ela aceitou a taa de champanhe e, quando ia lev-la aos lbios, o general disse:
- Creio que deveramos fazer um brinde, a ns e ao nosso pas!
- Meu pas - corrigiu ela, imediatamente. Ele apenas inclinou a cabea e acrescentou:
- Tambm ser meu, assim que nos casarmos.
Ileana reprimiu a vontade de dizer-lhe que o lugar dele era nas montanhas, de onde no devia sair para no contaminar lugares civilizados. Sabia que as palavras 
seriam inteis. Tomou da sua taa em silncio, e logo percebeu que a bebida a fazia sentir-se mais forte novamente.
O general continuava a fit-la, mas ela evitou encar-lo. Temia
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que ele visse o dio estampado em seus olhos, o que poderia deix-lo na defensiva.
Terminando de tomar seu champanhe, ele pegou o copo da mo dela, dizendo:
- Vamos, princesa. Esperam por ns para comear a cerimnia.
Em seguida, ele tomou o brao de lleana e ambos saram da tenda.
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CAPITULO IV
Fora da tenda, o cenrio estava totalmente transformado. O crepsculo cedia lugar  noite que vinha caindo, envolvendo tudo em seu manto de mistrio e encantamento.
Trmulas, as estrelas brilhavam acima dos montes e a lua j se mostrava, tmida, por trs de uma nuvem passageira, para brilhar logo depois, tingindo de prata os 
altos picos das montanhas.
Ileana olhou, com surpresa, para todo o pessoal da tribo reunido, formando um grande crculo. Pela primeira vez, reparou que, alm de muitos homens, havia tambm 
diversas mulheres e crianas.
Todos vestiam suas melhores roupas e as mulheres davam uma nota colorida, com seus trajes tpicos, de cores vistosas e arranjos de flores ou fitas na cabea, em 
contraste com seus cabelos negros.
No centro do crculo, fora improvisado um altar, coberto com um tecido bordado com fios de ouro. No centro, havia uma cruz e inmeras velas ardiam.

O padre, cujas vestes sacerdotais eram as da igreja grega, aguardava os noivos e, ao v-lo, com sua longa barba, seu ar austero, irradiando autoridade, Ileana no 
teve dvidas de que era um sacerdote autntico.
O general Vladilas segurou sua mo e a conduziu solenemente at o altar. Reinava um silncio respeitoso e ela teve a impresso de que toda a tribo parecia estar 
assistindo  cerimnia como se estivesse em uma catedral.
Ileana estava calma, como se toda a magia da natureza a contagiasse. No poderia haver cena mais linda: as montanhas se elevando sobre o vale, que se estendia a 
perder de vista, num suceder de sombras indefinidas  plida luz do luar e das
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estrelas; e ali, no altar, o brilho alegre e vivaz das chamas da velas que danavam com a brisa suave de vero.
Uma criana aproximou-se dela e entregou-lhe um buqu de flores alpinas, semelhantes s bordadas em seu vestido.
Ao pegar as flores, Ileana, um pouco emocionada, apertou a mo do general e sentiu que ele fez o mesmo. Imediatamente porm, voltou a sentir a mesma raiva que parecia 
t-la deixado em paz por alguns instantes. Era como se lhe dissesse, com aquele gesto, que ela era sua prisioneira e ele, o seu senhor.
Havia um enorme tapete persa em frente ao altar e dois banquinhos estofados de veludo, onde eles se sentaram.
A cerimnia comeou e Ileana pde compreender tudo, porque no era muito diferente das que costumava assistir na catedral, perto do palcio.
Depois de terminadas as longas oraes, enquanto duas coroas eram suspensas sobre a cabea dos noivos, seguradas por dois homens da tribo, o sacerdote benzeu as 
alianas.
E, nesse momento, nova surpresa para Ileana, pois a aliana que o general ps em seu dedo era do tamanho exato.
Enquanto ouvia as palavras em grego, que os unia em matrimnio para o resto de suas vidas, ela no pde evitar o pensamento que j era quase uma obsesso: iria fugir 
daquele homem assim que se apresentasse a primeira oportunidade.
Depois de receberem a bno final, o general levantou-se, ajudou-a a levantar-se e todos da assistncia fizeram o mesmo.
Novamente surpresa e tambm emocionada, ela ouviu todos cantando, respeitosa, espontnea e entusiasticamente o hino nacional de Zokala, que ecoou pelas montanhas, 
enchendo de sons gloriosos e marciais a noite suave de vero. 
E, mais uma vez, Ileana odiou o general, por parecer to confiante, por j se sentir o rei do pas que era dela.
Terminado o hino, ele tomou-lhe a mo e a beijou.
Ileana tentou puxar a mo, porm estava presa to firmemente, que logo depois da primeira tentativa desistiu. E, enfrentando a fria que havia nos olhos dela, o 
general Vladilas apertou seus lbios de encontro  delicada pele de sua mo.
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Aquele beijo foi como um sinal para todo o povo da tribo, pois, imediatamente, palmas e vivas triunfantes ressoaram pelas montanhas e pelo vale.
As manifestaes continuaram at que os noivos se ajoelharam diante do sacerdote e, depois, tomando Ileana pelo brao, o general conduziu-a de volta  tenda.

Vrias crianas iam  frente deles, atirando ptalas de rosas e, assim que entraram, ela puxou a mo bruscamente, afastando-se dele.
Desejava dizer a ele uma srie de coisas desagradveis, rudes, mordazes; entretanto, devia reconhecer que a cerimnia havia sido muito bonita, impressionante e fora 
do comum.
O general dirigiu-se  mesa, onde estava a garrafa de champanhe e, enchendo novamente as duas taas, entregou a dela e disse:
- Devo cumpriment-la por haver emprestado mais brilho  cerimnia.
Ileana permaneceu em silncio e tomou a bebida, como se, novamente, buscasse foras para no desfalecer. Depois de tambm tomar seu champanhe, ele disse:
- Devemos esperar um pouco, enquanto preparam tudo para servir o banquete. Deve estar com fome.
- Admito que sim.
- Perdoe-me por haver esquecido de que est acostumada a ter uma refeio no meio do dia - comentou ele, sorrindo. Quando estamos viajando, eu e o meu povo s comemos 
de manhzinha e  noite. J  hbito nosso.
Ela pensou que, na verdade, era um costume muito prtico; mas no fez nenhum comentrio. Preferiu mudar de assunto.
- Suponho que j pensou em como todos no palcio devem estar preocupados e agitados por minha causa.
- Sim, pensei nisso e, quando mandei Olav voltar, pedi a ele que informasse aos dois capites de que voc s retornaria amanh. Depois, mandarei um emissrio com 
novas instrues, por escrito, sobre as solenidades de recepo.
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- E, por acaso, julga que iro acatar ordens desse tipo. ainda mais vindas de voc?
- Creio que j lhe disse, e que fui muito claro, que minhas ordens sero mandadas por escrito. Considero seu primeiro-ministro inteligente o bastante para obedec-las.
- Est mandando instrues ao meu primeiro-ministro sem me consultar? Como ousa fazer isso?
- O que estou pedindo no  nada revolucionrio e, naturalmente, temos que anunciar o casamento para nosso povo.
- Imagino que pensa que, havendo se casado comigo, irei cuidar apenas dos assuntos domsticos, deixando os negcios de Estado para voc! Pois fique sabendo que est 
muito enganado! Novoupermitir que me manobre, nem que manobre o meu pas!
Ela disse aquelas palavras como se estivesse cuspindo fogo, seus olhos verdes faiscando de fria.
O general Vladilas olhou-a fixamente e disse:
- Voc parece uma fera acuada quando fala comigo desse jeito! Gostaria de saber o que faz seus olhos brilharem desse modo.  o dio que sente por mim?
- No  da sua conta!
- Algum dia - continuou ele, calmamente -, gostaria de saber quantos jovens prncipes puseram seus coraes a seus ps e de que forma foram amados por voc.
Ileana teve vontade de gritar, por ele estar sendo to impertinente e zombeteiro. Porm, controlou-se e disse apenas:
- Meus sentimentos so meus e, certamente, no lhe dizem respeito.
- Como seu marido, creio que me interessam e muito. Mas esse assunto fascinante pode esperar. O banquete nupcial espera por ns.

Ele estendeu-lhe o brao e Ileana, sem ter outra alternativa, levantou-se e o acompanhou para fora da tenda.
L fora, tudo estava completamente mudado. No local do altar, havia uma mesa, coberta com uma toalha branca e com um maravilhoso arranjo de flores ao centro. A porcelana 
e os
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talheres, impecavelmente dispostos, eram to finos quanto os usados no palcio de Zokala.
As pessoas estavam todas acomodadas em um grande crculo e, provavelmente, iriam ser servidas ali mesmo onde se achavam sentadas.
Grandes tochas, espalhadas por todo o acampamento, iluminavam o ambiente e Ileana pde ver que o general tinha muito mais gente sob seu comando do que jamais imaginara.
Ela reparou que os homens estavam sentados enquanto as mulheres e crianas ficavam de p, para servi-los. Embora soubesse que aquilo era um costume entre eles, ela, 
instintivamente, fez um movimento de pouco caso com os lbios, jurando que jamais iria se submeter a tal comportamento. Se o general imaginava que iria assimilar 
uma cultura atrasada, que menosprezava a mulher, estava totalmente enganado.
Assim que eles se sentaram, um grupo cigano comeou a tocar uma msica muito suave, que vinha de alguns violinos e de vrios outros estranhos instrumentos. Absorvida 
pela msica, que Ileana sempre amara e que tocava o mais fundo do seu ser, ela ficou, por uns momentos, mais calma e distrada.
Durante a festa, foi servido um vinho muito bom, em clices de ouro, decorados com pedras preciosas. Cada vez mais, ela se surpreendia ao ver tantos objetos finos 
em poder do general.
"Sem dvida, tudo isso foi roubado de algum nobre velho ou doente, que no pde resistir a esse bandido e a seus homens!", pensou Ileana com desprezo, enquanto provava 
o vinho.
Era uma bebida deliciosa, dourada e suave. Teve de admitir que era muito melhor do que o vinho produzido em Zokala.
Como que adivinhando seus pensamentos, o general disse:
- Imaginei que iria apreciar este vinho.  produzido com um tipo de uva que pretendo cultivar em Zokala. Estou certo de que este vale ser propcio para essa casta 
de uvas, desde que se faa um pequeno preparo do solo.
Ela permaneceu em silncio, pensando em como havia sido omissa, ao deixar aquele vale to frtil sem cultivo algum. Era realmente uma grande falta, em um pas to 
pequeno, permitir
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que uma terra, como a do vale Bela, ficasse agreste -e improdutiva.
 medida que os pratos se sucediam, e que ela os experimentava, reconhecia que cada um era mais delicioso que o outro. Apesar de no querer elogiar aquele homem, 
cuja presena a seu lado era impossvel de ser ignorada, perguntou:
- Mesmo viajando, voc tem sempre comida to abundante e to saborosa?
- Por que no? Detesto desconforto. s vezes, especialmente no rigor do inverno, o alimento  escasso. Mas meus homens so caadores hbeis e exijo que a caa seja 
bem preparada. Dessa forma, temos sempre iguarias  mesa.

Ileana jamais havia esperado tal refinamento por parte de um chefe de bandidos. E, apesar de detest-lo, no podia negar que era um homem de gosto apurado, de maneiras 
elegantes  mesa e cercado de todo o luxo e conforto.
Tudo aquilo a deixava extremamente intrigada e tambm no conseguia entender o fato de que Vladilas, sendo um falso general, com patente dada por ele mesmo, pudesse 
compreender as complexidades do governo de um reino.
"Como pode ele pensar em se coroar rei? Jamais irei deix-lo tomar o lugar de meu pai! ", pensou.
Por outro lado, ela cobiava os canhes e os outros armamentos, que podia ver, apesar de indistintamente, entre as sombras da noite. Mesmo parados, como que em exposio, 
seus contornos a assustavam. E cobiava muito mais os cavalos soltos nos relvados, junto s margens do rio.
Naquele mesmo rio, havia abundncia de trutas e elas fizeram parte do primeiro prato servido no banquete. O peixe havia sido preparado com uma combinao tal de 
ervas, que o tornara delicadamente saboroso.
Em seguida, foi servido cordeiro assado, muito macio, e perdiz, uma caa em que os hngaros eram especialistas e que sabiam preparar como ningum.
Ela saboreou todos os pratos, aprovando-os, e, ao final do banquete, foram servidos morangos silvestres, os primeiros da
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estao. Havia tambm outras frutas silvestres, que ela no conhecia, porm mais deliciosas do que qualquer outra que j havia provado antes.
Ileana no encontrou defeito algum no que fora servido e era obrigada a reconhecer que o banquete estivera muito alm de suas expectativas. Apesar de a comida no 
palcio ser tima, seus chefs, embora fossem os mais hbeis e mais famosos do reino, jamais preparariam pratos de sabor to refinado como aqueles.
Ela, porm, guardava para si as observaes que fazia. No queria dar a Vladilas o prazer de ouvi-la dizer que apreciara a comida e o servio.
Para terminar, foi servido caf turco, em tradicionais xcaras sem asa, colocadas em suportes de ouro ricamente trabalhados. Os bules tambm eram maravilhosos, valiosssimos, 
verdadeiras jias, que agradariam a qualquer conhecedor de artes.
" tudo roubado! Tudo roubado! ", pensou Ileana novamente, enquanto aceitava uma segunda xcara de caf.
Logo em seguida, a mesa, que havia  sua frente, desaparecera como por um passe de mgica, para dar lugar ao grupo de ciganos.
A msica, que, durante o jantar, havia sido romntica e suave, tornou-se alegre, vivaz, e os ciganos danavam animadamente.
Ela j havia visto muitas danas ciganas, embora seus pais reprovassem o fato. Nos ltimos tempos, durante a doena do pai, ela costumava ir a um acampamento cigano, 
onde pedia que danassem para ela.
Entretanto, o que via ali era muito diferente. Pareciam ciganos de uma tribo mais evoluda e algumas das danarinas deviam ser russas, consideradas as melhores do 
mundo.
com seus pandeiros e guizos dourados nos tornozelos, elas tinham uma graa indescritvel! Quando saltavam, faziam-no com tanta leveza, que pareciam voar. Seus movimentos 
de braos e mos, to leves e ritmados, faziam-nas parecer seres etreos.

Os msicos comearam, ento, a tocar em um ritmo bem mais vivaz e a dana tornou-se mais rpida e mais frentica. Ileana
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olhou para o lado e percebeu que Vladilas no estava mais junto dela. Imediatamente, ocorreu-lhe que talvez tivesse alguma possibilidade de fugir. Mas logo se deu 
conta de que os cavalos estavam muito distantes e que seria difcil passar por entre todas aquelas pessoas que cercavam os danarinos, formando um crculo muito 
compacto.
"Mais tarde aparecer uma oportunidade", pensou ela, sem perder as esperanas.
Foi ento que ouviu gritos e vivas. Voltando sua cabea para ver o que deixara todos to entusiasmados, percebeu que o general aparecia no meio do crculo, no mais 
com o seu uniforme de gala, mas com um traje usado pelo noivo nas cerimnias gregas de casamento. Vestia cala preta, justa, uma camisa branca com mangas bem largas 
e bordadas, um bolero tambm preto, onde estavam penduradas inmeras moedas de ouro.
Na cintura, tinha um leno de cetim vermelho amarrado bem firme, onde ficavam a pistola e a adaga que os ciganos sempre usavam. Ambas as armas do general apresentavam 
cabos incrustados de diamantes e outras pedras preciosas, que brilhavam  luz dos archotes.
Assim que ele chegou junto ao grupo de ciganos, as danarinas correram em sua direo e, juntos, comearam nova dana.
"Pura exibio! ", pensou Ileana.
Porm, logo constatou que ele danava muito bem. Era difcil acreditar que um homem to alto, forte e musculoso, pudesse danar to levemente.
Todos da tribo estavam alegres; pareciam sentir orgulho de seu chefe, e batiam palmas entusiasticamente. Novamente, o vale e os montes se enchiam com a sonoridade 
festiva dos risos, das palmas e da msica.
Somente Ileana continuava muda, olhando para aquele homem que parecia vitorioso em tudo. E, em seu olhar, havia uma declarao tcita de dio contra ele.
O general e as danarinas passaram, ento, a uma dana mais sedutora, de gestos sensuais, de expresses lnguidas e de movimentos provocantes.
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Em seguida, a um sinal, todos comearam a danar tambm e a msica tornou-se novamente mais viva, folclrica, tpica do sul da Grcia. Devia ser bem conhecida, pois 
todos danavam com desenvoltura, no mesmo ritmo, cantando com muita alegria.
Ileana continuava a observ-los, sentindo-se fora de tudo aquilo. Ela no pertencia quele grupo. Aquele no era seu mundo.
De repente, sentiu que o general pegou-a pela mo e ela levantou-se, pensando que ele a convidava para danar. J estava preparada para uma recusa, pois, embora 
soubesse danar muito bem, no iria se sentir segura acompanhando aquele ritmo.
Mas ele, no entanto, apenas a conduziu para a tenda. Era impossvel conversarem em meio a todo aquele barulho e os dois caminharam em silncio. Ileana sentia a cabea 
doer.

Entraram no na tenda do general, mas naquela onde ela se vestira. No centro, havia a cama; a um lado, uma mesinha com um candelabro com trs velas acesas e, do 
outro lado, outra mesa, com um vaso de flores que enchia a tenda de um perfume suave.
No cho, estavam dois tapetes de pele branca, tambm um de cada lado e Ileana observou, consternada, que se tratava de uma cama bem grande, de casal.
Ela olhou para o general, que acabara de descer a lona, fechando a tenda. Ele amarrou cuidadosamente os lados da lona com ns e depois inclinou-se para amarrar a 
parte de baixo. Enquanto fazia isso, sua adaga caiu no cho.
com a agilidade que o medo lhe emprestava, ela apanhou
a arma.
O general se virou, olhou para ela e Ileana deu uns passos para trs, ficando contra os ps da cama, com a adaga brilhando nas mos, a ponta afiada voltada para 
ele.
- Est apenas tentando se defender ou pretende matar-me?
- ele perguntou, com uma nota divertida na voz.
Extravasando todo o dio que havia acumulado durante todas aquelas horas e vislumbrando uma leve esperana de se livrar do pesadelo, ela, sem pensar nas conseqncias, 
respondeu:
- Ambas as coisas.voumat-lo e o farei agora mesmo, se encostar suas mos em mim!
- Ento, a que ponto chegamos! Tolinha, embora parea to ameaadora segurando essa adaga, no v o que h atrs de voc!
To logo ela se virou para olhar, percebeu que havia sido apanhada num truque muito antigo.
Ento, gil como um animal predador, o general agarrou o seu pulso, forando-o para trs. Ela inclinou-se, caindo na cama.
Ele caiu sobre ela, dominando-a, subjugando-a completamente,
Ileana deu um grito, revelando todo o terror que a dominava, ao mesmo tempo que se odiava por haver sido to tola, por haver cado em um truque to primrio.
A fora com que ele lhe apertava o pulso fez Ileana soltar a adaga, que caiu no cho.
Consciente de que estava completamente  merc do general e vendo a expresso de triunfo nos olhos dele, ela sentia seu dio crescer. Detestava aquele bandido horroroso, 
com todas as foras de sua alma.
- Eu o odeio! Detesto-o! Suma daqui! Deixe-me s! gritou.
- Se eu no sair, o que pode fazer?
O peso do corpo dele sobre o seu era intolervel. O brao de Ileana doa muito e ela sentia-se totalmente indefesa para enfrentar aquele homem.
Ele a olhava fixamente, seus lbios quase se tocando. A expresso que viu naqueles olhos escuros a apavorou e a fez ficar gelada. S naquele momento  que percebeu 
que jamais sentira, realmente, medo em sua vida.
No se via mais como uma princesa lutando contra um bandido, mas como uma mulher lutando contra um homem.
Era uma luta primitiva e sua raiva cedeu lugar a um grande mal-estar, um sentimento de impotncia e pequenez diante de uma fora bem maior que a sua.
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Daquele modo, to indefesa, Vladilas poderia fazer o que quisesse com ela, e essa idia a aterrorizava. Nada poderia fazer ou dizer para impedir que ele a possusse 
e, obviamente, essa era a sua inteno.

- No! No! No! - gritou ela. com voz abafada, dolorida e rouca.
Seus enormes olhos verdes no mais revelavam dio ou desafio. Eram olhos que pediam clemncia, olhos de uma criana assustada, suplicando proteo e amparo.
Por um tempo, que lhe pareceu um sculo, o general apenas fitou-a em silncio. E ela sentia que o olhar dele tornava-se
mais suave, adentrando-lhe a alma.
- Estava indeciso - disse ele. - No sabia se lhe dava
uma surra ou se a beijava.
- Preferiria que me batesse - replicou ela, quase sem flego. - Acho que no estranharia. Espero tudo de... de um bandido.
Embora tentasse ter novamente seu ar de desafio e arrogncia, ela percebeu que sua voz soou insegura e inexpressiva. Rindo, o general disse:
-vou-me lembrar dessa preferncia no futuro.
Ele levantou-se e continuou a fit-la, lleana, que estava estendida, sentou-se depressa, assim que se viu livre. Ajeitou o vestido e ficou com as costas muito eretas, 
numa atitude de defesa.
Ele dirigiu-se para a sada da tenda, dizendo:
- Durma bem. Lembre-se de que est bem guardada. Ser intil tentar sair sem minha permisso.
To logo ele saiu em direo  sua tenda, ela suspirou, aliviada por estar longe dele. Continuava, porm, uma prisioneira.
Cansada demais, tentou relaxar e dormir. Precisava de um sono reparador e deveria estar alerta no dia seguinte. Se estivesse bem atenta, talvez conseguisse fazer 
alguma coisa racional, sensata, que a pudesse tirar daquela situao horrenda em que se encontrava.
Era difcil acreditar que, ainda naquela manh, ela se sentia feliz, cheia de planos e pensando em fazer o melhor por seu
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pas! E, ainda naquela manh, ela fugira de uma proposta de casamento.
No podia acreditar que estava casada! Casada com um bandido!. Um homem a quem detestava, um fora-da-lei. Um homem a quem temia.
Procurou, entretanto, acalmar-se, refletindo que o mais importante era planejar o que poderia fazer daquele momento em diante. Tivera um dia turbulento e, sem dvida, 
precisava pr sua mente em ordem.
Despiu-se lentamente, preparando-se para dormir e, mais uma vez, constatou que o general gostava mesmo do conforto e de coisas finas. Seu leito estava arrumado com 
lenis de linho da melhor qualidade; a coberta, feita de uma sedosa l de cordeiro, era muito leve, e o colcho, bem como os travesseiros, eram extremamente macios, 
recheados com plumas de ganso.
Deitou-se e, sentindo-se mais confortada, seus temores acalmados, Ileana comeou a pensar no general. No fossem as circunstncias, no tivesse ela se envolvido 
com aquele homem de um modo que considerava terrvel, poderia at admir-lo. Parecia ser uma pessoa de muito carter e bravura e seus feitos j se haviam tornado 
legendrios. Sem dvida, era de homens como ele que seu pas precisava.

com a sensao de estar flutuando, ela adentrou o reino encantado do sono, onde sentia-se embalada por suave e romntica melodia cigana. Estava certa de que haveria 
uma esperana para ela e para seu pas. O dio e o desespero j no existiam... A paz chegava, enfim.
Ileana despertou com a impresso de que havia algum em sua tenda.
Entreabriu os olhos e viu a mulher grega, que estava pegando o vestido de noiva, que ela jogara no cho, sem o menor cuidado, na noite anterior.
Depois, ela pegou o colar que estava sobre a mesa e, ao perceber que Ileana estava acordada, disse:
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- Est uma linda e gloriosa manh, princesa! Trarei seu desjejum dentro de uns minutos. Nosso chefe deseja que fique pronta em uma hora.
- E eu tenho que obedec-lo! - disse Ileana em voz baixa,
encaminhando-se para o banheiro.
A banheira j se encontrava cheia, esperando por ela, e a gua estava fria, o que tornou o banho mais estimulante.
Depois de enxugar-se, voltou para o quarto, onde j a esperava uma bandeja com o seu desjejum. Ainda enrolada na enorme toalha turca, ela sentou-se, comeu ovos com 
presunto e tomou uma xcara de caf francs.
Foi um alvio para ela no ter que fazer a refeio com o general e, acabando de comer, tornou a lembrar-se de tudo o que acontecera na vspera.
Sentia-se mais forte, sua raiva voltava e ela levantou-se, pretendendo apanhar suas roupas e vesti-las.
Nesse momento, porm, a mulher grega entrou, trazendo uma saia vermelha, uma blusa branca e um corpete de veludo negro; o traje tpico usado pelas mulheres de Zokala. 
- Quero minhas roupas! Onde esto?
- No existem mais, alteza.
- Como? O que quer dizer?
- Nosso chefe mandou queim-las.
- Queim-las? - ela soltou um grito agudo.
- Exatamente, alteza. Mandou queim-las - repetiu a mulher. - Nosso chefe no consente que as senhoras usem roupas que foram feitas para homens.
Ileana ficou em silncio. refletindo que s poderia esperar isso do general. Sentiu novamente uma vontade louca de mat-lo. Como poderia ir dispondo de sua roupa 
assim, como se fossem de sua propriedade?
Se, na noite anterior, ela tivesse enterrado aquela adaga no pescoo dele, certamente as coisas seriam bem diferentes.
Por outro lado, sabia que se matasse o chefe dos bandidos, tambm no estaria viva naquele momento. Todo aquele bando de homens parecia ser totalmente leal a
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ele, e o general, por sua vez, os chefiava com muita autoridade e havia nele uma fora magntica, que atraa a confiana e a lealdade de sua tribo.
Reconhecendo que no havia mesmo outra alternativa, lleana resolveu vestir-se.
Colocou primeiro um corpinho de seda, sentindo com prazer a maciez do tecido contra a pele. Em seguida, vestiu a angua com rendas, depois, uma blusa toda bordada, 
de mangas bufantes e arrematadas no punho com rendas feitas a mo. Por cima da blusa, colocou a saia vermelha.

Eram roupas da melhor qualidade e serviram-lhe como uma luva. Mais uma vez, ela teve de reconhecer o quanto o general era organizado e atento a cada detalhe. Mas 
afastou depressa esse pensamento; queria apenas alimentar dio e desprezo por aquele homem arrogante.
Finalmente, vestiu o corpete negro, de veludo, que a mulher grega lhe amarrou, e olhou-se ao espelho, achando que ficara muito atraente.
Ao calar as meias brancas e os sapatos pretos, com fivelas prateadas, teve uma nova surpresa, pois percebeu que eram exatamente seu nmero.
Em seguida, ela sentou-se em frente ao espelho, que ficava sobre uma mesa, e a grega escovou-lhe os cabelos, at deix-los brilhantes como raios de sol. Ajeitou-os, 
enrolando-os levemente com a escova, deixando uns cachos carem sobre os ombros e nas costas, e, no alto da cabea, prendeu uma grinalda com flores e fitas verdes, 
prateadas e douradas.
Depois de pronta, Ileana ergueu-se e a mulher grega disse:
- Vossa alteza est linda! Linda como deve ser a esposa de nosso chefe.
Depois de uma pausa, ela continuou, muito ternamente:
- Por favor seja bondosa para ele.  um homem to maravilhoso!
Os olhos da mulher brilhavam e Ileana percebeu que ela estava contendo lgrimas. Observando-a melhor, reparou em
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como aquela moa grega era linda. Parecia uma das deusas do Olimpo.
Instantaneamente, um pensamento lhe veio  cabea. A julgar pelo modo como as ciganas haviam danado na noite anterior com o general, ele devia ser muito desejado 
e, com certeza, teria muitas mulheres em sua vida.
- Por que devo ser bondosa para com um homem que me obrigou a casar com ele? - disse ela, rispidamente.
- Ele poderia escolher a mulher que quisesse para esposa, mas escolheu vossa alteza. Devia dar graas aos cus por ter tido esse privilgio!
A grega falava com tanto fervor e com tanta sinceridade, que Ileana torceu os lbios, com desprezo. Pretendia dar uma resposta bem ferina, mas acabou mudando de 
idia e perguntou:
- Qual  o seu nome?
- Thelia.
- Muito obrigada, Thelia, por cuidar de mim. Voc tem sido muito amvel.
Thelia no respondeu. Fez apenas uma reverncia e, de olhos baixos, os clios negros contra o rosto plido, afastou-se. Ileana tinha certeza de que ela escondia 
as lgrimas. Enquanto estava ali, de p, pensando no que iria fazer, o general entrou na tenda.
- Est pronta? - perguntou ele, seus olhos faiscando ao ver o quanto ela estava linda.
Ileana observou que ele usava a farda do exrcito de Zokala, com a insgnia de comandante-em-chefe. Sob o brao, trazia um chapu alto com plumas, que somente seu 
pai, o rei, usava em cerimnias solenes do exrcito.

Ele tambm carregava as mesmas condecoraes e medalhas que havia usado na noite anterior e uma faixa azul atravessava-lhe o peito. Dessa faixa, pendia uma verdadeira 
jia, a Comenda de Ordem de St. Miklos, o padroeiro de Zokala. Ela encarou-o, estupefata.
- Como ousa usar essas condecoraes, que so concedidas apenas a quem presta servios ao pas? E essa comenda? Qualquer um de nossos simples camponeses saberia 
que tudo isso foi roubado!
- J esperava que pensasse desse modo. No posso explicar agora. Vamos! Tudo est pronto para partirmos. Iremos  frente, depois, nossas tropas. O resto de meu povo 
seguir atrs.
- Estou envergonhada. profundamente envergonhada e humilhada por ter que ficar ao lado de um impostor - disse ela, em tom de desafio. - Um dia, pode estar certo, 
eu me vingarei.
- No vejo a hora de chegar esse dia - disse ele, rindo.
- Mas, por enquanto, s posso dizer que a manh est linda demais para ser estragada com dramas.
Ileana apertou as mos com fora, enterrando as unhas na carne, procurando dominar o desejo de avanar em Vladilas e mat-lo com as prprias mos.
Consciente de que jamais poderia fazer isso, ela o seguiu, desalentada.
E, l fora, o sol, que brilhava no azul do cu, parecia estar zombando dela. 
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CAPITULO V
Absolutamente atnita, Ileana viu que a carruagem que seu pai costumava usar em misses do Estado estava esperando por eles.
Era um land, uma carruagem de luxo, puxada por seis cavalos brancos, e cujos postilhes estavam vestidos com o uniforme real.
A unidade da cavalaria do rei estava logo atrs da carruagem e, assim que o general e Ileana chegaram, o comandante os saudou com uma reverncia.
- Suponho que voc tenha pedido toda essa escolta e a carruagem em meu nome - disse ela baixinho.
- Claro! Mas os enfeites foram feitos por meu povo respondeu ele, provocativamente. - Espero que goste.
Ela olhou com frieza para as flores que enfeitavam o land e as grinaldas nos pescoos dos cavalos. Apesar de reconhecer que tudo estava muito bonito e alegre, no 
podia pensar em situao mais humilhante do que se dirigir ao palcio ao lado de um homem que menosprezava sua posio de princesa e herdeira do trono de Zokala.
Os dois subiram na carruagem e partiram, sob os vivas alegres dos que ficavam.
Atrs do veculo, ia a cavalaria do palcio, seguida dos imensos canhes puxados por cavalos e de grande parte dos homens do general, formando um squito que se 
estendia quase a perder de vista.
Quando chegaram  estrada principal, os cavalos puderam ir mais depressa e a viagem at o palcio levaria, ento, pouco mais de uma hora e meia.
Ileana ia imaginando como seria a chegada no palcio e sentiu uma dor no peito ao lembrar que, na manh anterior, sara
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com a simples inteno de descobrir quais eram as intenes do bando do general. Conseguira, afinal, mas quanto lhe custara tal descoberta!

Nem em suas mais loucas fantasias, poderia imaginar que voltaria casada com o chefe dos bandidos, a quem no s desprezava, mas temia.
Ela ia sentada ereta ao lado do general, mas sem olhar para ele, com seu uniforme de gala, o chapu alto emplumado, usado apenas pelo comandante-em-chefe do exrcito. 
Aquilo era mesmo uma impertinncia, passvel de punio e at de morte!
Por outro lado, a longa fila de canhes atrs deles era impressionante.
At mesmo os mais ignorantes cidados de seu pas reconheceriam que aquelas armas eram uma bno a uma resposta definitiva para as ambies da Hungria ou de qualquer 
outro pas que pretendesse conquist-los.
O cortejo chegou ao centro do vale, onde os lavradores trabalhavam no campo, e todos vieram para a beira da estrada. Quando viram Ileana, a princesa que eles amavam 
e respeitavam, comearam a saud-los, com grande alegria e ruidoso entusiasmo.
E, em meio aos vivas e palmas, no deixavam de demonstrar a curiosidade em saber quem era o homem ao seu lado.
O general, por sua vez, aceitou os vivas e acenava para o povo e,  medida que se aproximavam da cidade, o nmero de pessoas que os aclamava ia aumentando. A notcia 
de que eles iriam chegar, certamente, deveria ter se espalhado por todo o reino, pois parecia que todos os habitantes saam de suas casas para receb-los entusiasticamente.
- Ao que tudo indica - disse o general, dirigindo-se a Ileana pela primeira vez durante a viagem -, nosso povo, finalmente, est feliz ao ver sua princesa assim 
vestida e devem saber que  a noiva que por tanto tempo esperaram.
- Noiva de um bandido! - respondeu ela, em tom escarnecedor.
- Se prefere assim.
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Ela olhou-o rapidamente e percebeu que o general sorria, prazeroso, como se houvesse recebido um elogio. E, novamente, teve um mpeto de raiva.
Assim que atravessaram o muro que protegia a cidade, ela reparou que a carruagem no seguia em direo ao palcio. Intrigada, perguntou:
- Para onde vamos?
- Para a Praa do Mercado; voc ordenou que o primeiro-ministro e todo o ministrio estivessem reunidos  frente do Parlamento.
- Voc disse que eu ordenei?
- Apenas fiz isso em seu nome.
- Estou certa de que todos ficaro felizes com os canhes e as armas, que serviro para a defesa do reino. No entanto, no consigo ver qualquer outra vantagem que 
possa advir, quer social ou politicamente, de eu ser casada com um bandido.
Ele riu novamente, dizendo:
- No vejo a hora de surpreend-la.
- As surpresas que j tive nestas ltimas horas foram suficientes para que eu me lembre delas pelo resto da vida.
- Creio que ainda no. Conheo-a o bastante para saber que achar a vida muito aborrecida, se no estiver com seus olhos verdes falseando e seus lbios cuspindo 
dio! E isso , de fato, uma pena, pois lbios lindos assim foram feitos para os beijos mais ardentes e apaixonados!

lleana ficou rgida e surpresa. E enfureceu-se mais ainda ao perceber que enrubescera.
- Falando com franqueza - continuou o general -, estou convicto de que todo o ministrio e todo o povo de seu pas ficar contente e orgulhoso ao ver que a princesa 
lleana  to linda assim vestida, como uma verdadeira representante da beleza da mulher de Zokala.
Mais uma vez, lleana teve de se controlar. Aquilo j era demais! No contente em queimar suas roupas, em vesti-la como uma boneca, ele ainda zombava dela! Desejaria 
ter a coragem
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de arrancar aquela grinalda e de rasgar aquelas roupas que vestia.
Mas a carruagem seguia entre a multido alegre e ruidosa e, naquele momento, o povo os recebia com flores, alm das palmas, acenos e vivas. Ela tambm podia ouvir 
gritos de "boa sorte!" vindos da multido, como se julgassem que estavam apaixonados um pelo outro.
Ao chegarem  Praa do Mercado, a multido era muito mais compacta e eles avanavam lentamente. O primeiro-ministro estava de p, no alto da escadaria,  entrada 
do Parlamento.
Ileana calculava que eles deveriam estar confusos, sem ter a noo exata do que estava acontecendo. Quando j estavam bem prximos, ela no pde deixar de observar 
que seus ministros eram todos j idosos, desanimados, o que criava um contraste gritante com a vitalidade, fora e carisma do homem que estava ao seu lado.
A carruagem parou e um criado desceu a escada estendendo um tapete vermelho. A guarda pessoal se colocou em posio de sentido, dos dois lados da escada, e um criado 
de libr abriu a porta do land. O general desceu primeiro, logo estendendo a mo para ajudar a princesa a descer.
Apesar de ela mal tocar nos dedos dele, o general segurou-lhe a mo com firmeza e comearam a subir vagarosamente e com majestade as escadas, enquanto a carruagem 
partia.
Quando chegaram ao alto, o primeiro-ministro adiantou-se:
-  uma grande honra para ns receber vossa alteza aqui em nosso Parlamento. - E voltando-se para Vladilas: - Meus colegas se juntam a mim nesta saudao a to distinto 
visitante.
Ao ouvir tais palavras, os olhos de Ileana faiscaram, pousando-os sobre as condecoraes que havia no peito do general. Ser que seus ministros no viam que ele 
era um impostor?
Houve uma pausa e todos esperavam que ela apresentasse o homem ao seu lado. As palavras, porm, no vinham aos seus lbios e, repentinamente, o general estendeu 
a mo, dizendo:
- Sinto-me honrado em estar diante de vossa excelncia, primeiro-ministro, e, agora, em meu nome e no de sua alteza
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real, a princesa Ileana, tenho uma declarao a fazer e gostaria que me permitisse faz-lo, daqui, onde nos encontramos.
O primeiro-ministro, tomado de surpresa, olhou para a princesa e disse, um tanto inseguro:
- Sim... se  esse o desejo de sua alteza, a princesa
Ileana...

Enquanto o general cumprimentava os outros ministros, foram trazidas vrias cadeiras, que foram colocadas no alto da escadaria, formando uma ampla plataforma.
Ileana tomou seu lugar no centro. Acabados os cumprimentos, Vladilas voltou-se para a multido, que se concentrava logo abaixo dele e que o observava, num misto 
de entusiasmo e
curiosidade.
Ela no se lembrava de haver jamais visto tanta gente reunida. Olhou para aquele mar de rostos dos cidados de Zokala, todos fixos no general. Realmente, ele era 
um homem que se impunha, no s pela altura, porte atltico e o magnetismo que irradiava mas, principalmente, pelo uniforme que estava
vestindo.
A voz dele soou pela praa, to forte e resoluta, que todos podiam ouvir, mesmo os garotos que estavam ao longe ou no alto das rvores.
- Povo de Zokala - comeou ele -, trago-lhe a boa nova de que eu e sua alteza, a princesa Ileana, nos casamos, ontem, no bonito Vale Bela!
Houve um instante de silncio, seguido de um murmrio de surpresa em unssono. E, ento, um retumbante bater de palmas, acompanhado de vivas de alegria.
O general esperou um pouco e os aplausos continuaram. Ele se voltou, estendeu a mo para Ileana, que veio ficar ao lado dele para, juntos, receberem a ovao do 
povo.
Depois que o silncio voltou a reinar, ela sentou-se e o general continuou:
- Agradeo-lhes pela maravilhosa demonstrao de carinho, mas, agora, devo apresentar-me. Creio que alguns de vocs, cidados mais velhos, conheceram meu pai.
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Ele fez uma breve pausa e parecia que todos haviam prendido a respirao, esperando que continuasse.
- Sou o prncipe Vladilas, filho nico de sua alteza, o prncipe Alexander, de Zokala.
Houve um novo explodir de aplausos e, fazendo um sinal com a mo, pedindo silncio, ele continuou:
- Meu pai e o rei Milko eram primos irmos. Meu pai morou com a famlia no castelo que fica na regio ocidental de nosso pas, na fronteira com a Romnia. Infelizmente, 
embora os dois jovens fossem primos irmos e, a princpio, amigos ntimos, quando se tornaram adultos, brigaram e se separaram. Sendo naturais de Zokala, vocs podem 
imaginar que o motivo do desentendimento foi uma linda mulher!
Uma risada geral ecoou.
- Finalmente - prosseguiu ele -, a animosidade entre os dois era to grande, que o rei Milko exigiu que meu pai deixasse o pas. Talvez o rei nem esperasse que meu 
pai o obedecesse, mas ele era muito orgulhoso para no acatar uma ordem real e tampouco poderia continuar em um pas onde no era benquisto. Ele deixou Zokala, jurando 
nunca mais voltar, embora partir lhe doesse o corao. Mas nem meu pai, nem qualquer um de ns, cidados de Zokala, jamais admitiremos que algum nos humilhe! Isto 
 algo que jamais devemos deixar que nos acontea. Meu pai esteve em muitas terras, viajou por muitos pases e, afinal, se casou com uma princesa grega, a encarnao 
da beleza, da bondade, doura e sabedoria. Eu nasci e cresci, ansiando poder voltar a este pas, que jamais saiu da lembrana de meu pai.

Seu modo de falar era comovente e prendia a ateno de todos.
- No tenho tempo de contar-lhes quantos lugares conheci, durante minha infncia e juventude. Lutei em defesa de vrios pases, inclusive da Grcia, pas de minha 
me. H um ano atrs, soube que o reino de Zokala corria perigo de ser invadido e conquistado por um de nossos vizinhos e decidi que precisava salvar este pas. 
Por isso, trouxe para c armamento
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mais moderno e munies. Podemos, assim, garantir nossa defesa e Zokala sobreviver a qualquer ataque. Antes de morrer, e sabendo o que eu pretendia fazer, meu pai 
deu-me sua bno e pediu-me que salvasse este pas e me tornasse seu rei. Como o rei Milko no tem filho, meu pai seria o herdeiro do trono e ele morreu feliz, 
sabendo que eu iria voltar a Zokala. As condecoraes que trago em meu peito foram de meu pai e ele sempre as conservou como sendo seu maior tesouro. Em nome de 
meu pai e, como marido de sua futura rainha, eu lhes peo, cidados de Zokala, que me aceitem como seu lder, seu rei e salvador, porque, como todos vocs, amo este 
pas!
A resposta foi uma aclamao ensurdecedora. A multido aplaudia, acenava, agitava lenos, chapus e bengalas.
A demonstrao de entusiasmo era to grande, to sincera, to comovente, que Ileana sentiu as lgrimas inundarem seus olhos.
Os ministros ergueram-se e aplaudiram o prncipe Vladilas durante muito tempo, no escondendo a alegria incontida que os dominava.
Mais uma vez, ele estendeu a mo para Ileana e trouxe-a para seu lado. Esse gesto fez as palmas e vivas tornarem-se ainda mais frenticas, pois a princesa era muito 
popular e amada por todos.
Em seguida, ele tomou a mo de Ileana e levou-a aos lbios. Mais uma vez, ela sentiu o calor dos lbios dele de encontro  maciez de sua pele.
O primeiro-ministro aproximou-se do prncipe e convidou-o a entrar no prdio do Parlamento. Enquanto caminhavam, ela lhe disse, baixinho:
- Por que no me contou tudo isso?
- Queria fazer-lhe uma surpresa - respondeu ele, sorrindo.
- Perdoe-me por faz-la sentir-se enganada.
Lembrando-se de que o havia chamado de bandido e ladro, ela sentiu as faces enrubescerem e evitou encontrar o olhar dele.
Depois de receberem os cumprimentos dos membros do Parlamento, que estavam no interior do prdio, mas que tambm
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haviam ouvido o que o prncipe dissera, o primeiro-ministro dirigiu-se a eles.
- Devo pedir desculpas, pois no tivemos tempo de preparar um almoo como a ocasio merece.
Voltando-se para Ileana, ele continuou:
- No tenho palavras para dizer a vossa alteza o quanto estou contente e emocionado. Depois de relutar em atender nosso pedido para se casar, conquistou para marido 
um prncipe que ama este pas como ns amamos!
Ela teve vontade de responder que ela no havia conquistado ningum. Afinal, no tivera escolha. E, novamente, sentiu-se envergonhada de seu comportamento.
Sem responder, ela apenas olhou para baixo, o que o primeiro-ministro tomou como acanhamento.

O prncipe Vladilas, entretanto, estava muito  vontade e, durante o almoo, foi extremamente jovial, deixou todos muito descontrados, contou anedotas e falou sobre 
seus pais. Foi realmente cativante e encantador.
Tambm contou que muitos de seus homens eram filhos e at netos dos amigos que haviam seguido seu pai para o exlio voluntrio e que o prncipe Alexander, ao sair 
de Zokala, havia sacudido as botas e jurado que nunca mais teria nem mesmo o p desse pas sob os ps-.
Depois, mais srio, ele comentou:
- Visitei o castelo de meu pai h seis meses e observei que vocs tm deixado o Vale Mispa negligenciado, assim como o Vale Bela.
Os ministros ficaram um pouco embaraados e o prncipe continuou:
- Pelo que meu pai me disse e pelo que pude verificar, o Vale Mispa tem um enorme potencial.
- Nunca estive l - disse o primeiro-ministro -, mas sempre imaginei que aquelas terras fossem improdutivas.
- No momento, so - concordou o prncipe. - Mas h muita caa na regio, nas montanhas; h abundncia de gua, o que pode facilitar a irrigao de diversas culturas. 
Alm disso,
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aquelas montanhas so ricas em pedras preciosas e mrmore e nada foi ainda explorado.
Ele olhou para os ministros, que o ouviam atentamente, e prosseguiu:
- Pretendo deixar meus homens e suas famlias instalados naquele vale. Eles construiro casas e vo introduzir no reino suas habilidades manuais e sua arte. E um 
povo muito talentoso e muito diligente, sabem tambm cuidar da terra e da criao. Em breve, o Vale Mispa ter tanto progresso, que vai servir de exemplo para todo 
o pas.
Vladilas fez uma pausa, para depois continuar:
- Alm disso, os soldados bem treinados de que disponho instruiro os jovens do exrcito de Zokala quanto a usar nossas novas armas. No temos apenas esse armamento 
que viram. H muito mais para chegar.
- Mais? - perguntou o ministro da defesa, surpreso. E, perdoe-me, alteza, a impertinncia da pergunta, mas como poderemos pagar por essas armas?
-  uma pergunta sensata. Digamos que elas sejam um presente, pela minha reintegrao ao pas. Durante os anos de exlio, meu pai acumulou uma grande fortuna.
Ele olhou para lleana, com os olhos brilhantes, e prosseguiu:
- Imagino que at minha esposa pensa que os bandidos vivem apenas roubando outras pessoas para sobreviverem. Isso pode ser verdade, porm o que fiz em minhas viagens 
pelos Blcs foi roubar ou copiar idias e us-las de maneira a obter lucros ou vantagens, o que, muitas vezes, estadistas e governantes nem sempre compreendem. 
Penso que os senhores gostaro do novo tipo de rifles que usamos. So simples, porm de muita preciso e podem ser feitos em nossas fbricas. Dentro de um ano, teremos 
o suficiente para, inclusive, vender aos vrios pases da Europa.
O ministro da defesa parecia um pouco ctico, mas o prncipe continuou:

- Possuo tambm um sistema aperfeioado para transportar armas e outros equipamentos atravs de rios e montanhas, que
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 perfeitamente seguro e, ao mesmo tempo, difcil de ser imitado. Temos o segredo de fabricao.
Ele fez um gesto expressivo com as mos, dizendo:
- Temos dezenas de idias. Admito que roubamos algumas, mas a maioria foi fruto da necessidade. Tenho certeza de que essas novas idias e tcnicas contribuiro grandemente 
para o progresso de Zokala.
Pela expresso no rosto dos ministros, era inegvel que haviam ficado muito impressionados com o que o prncipe lhes dissera.
Apesar do entusiasmo com que Vladilas havia sido recebido, quando o almoo terminou, Ileana percebeu que ele estava ansioso para sair e que ia respondendo com uma 
certa impacincia s perguntas que lhe faziam, tantas eram elas,
 certa altura, como por um passe de mgica, o prncipe encerrou o almoo, despediram-se e foram para a carruagem, que os esperava em frente ao prdio.
Durante o percurso, foram mais uma vez saudados pelo povo, que expressava seu voto de boa sorte aos noivos com uma chuva de ptalas de rosas.
A carruagem movimentava-se lentamente e a multido continuava a atirar flores. Em alguns minutos, estavam diante dos portes com ponteiras douradas e a carruagem 
entrou no lindo jardim que circundava o majestoso palcio. Construdo h dois sculos, numa colina natural, ele sobressaa-se altaneiro, contemplando, do alto, a 
cidade e o vale.
O prncipe Vladilas nada dizia, mas observava tudo com uma expresso de agrado.
Atravessaram o portal imponente e entraram no vestbulo, onde os criados, em suas librs brancas com enfeites dourados, os jurisconsultos e os camareiros estavam 
de p, aguardando por eles.
As congratulaes que receberam foram efusivas e Ileana constatou, feliz, que o prncipe Vladilas era aceito com muito entusiasmo, o que talvez no acontecesse se 
ela tivesse se casado com um prncipe estrangeiro.
Por fim, eles ficaram a ss numa linda sala de estar, mais
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ntima, que dava para um ptio interno, todo ajardinado e onde a me de Ileana costumava ficar. Por isso, aquele aposento era conhecido como a "sala da rainha". 
Ali, sozinhos, ela voltou a insistir na pergunta:
- Por que no me contou? Por que me enganou? Por acaso, julgou que seria melhor deixar-me descobrir quem voc era. assim. dessa forma?
- No a enganei. Foi voc mesma quem fez seu prprio julgamento, baseada apenas nas aparncias. A vida que at agora levei com meu povo sempre teve ideais elevados 
e prestamos servios a muitos pases. Entretanto, como j expliquei, de certa forma, eu era um. tipo especial de ladro. Por outro lado, para mim e para meu povo, 
as experincias que tivemos s nos enriqueceram. Por isso, especificamente, elas iro me ajudar a resolver os problemas que, segundo constatei,vouenfrentar
aqui.

- Vivendo tantas aventuras, lutando em tantos pases, talvez a monotonia de um reino o canse, principalmente depois de ter resolvido os principais problemas.
-  um risco que tenho de correr - disse ele, sacudindo os ombros: - Entretanto, creio que todo homem h de, um dia, querer levar uma vida mais calma.
- E sempre h a alternativa de poder ir at as montanhas, caso venha a achar intolervel a rotina palaciana.
- Por acaso, est insinuando que devo fazer isso? - perguntou ele, com uma nota divertida na voz. - Espero at que eu veja se meu povo se adapta bem aqui em Zokala 
e, claro, meus cavalos.
Os dois sorriram e os olhos de Ileana brilharam, ao lembrar-se dos maravilhosos cavalos rabes que ela vira perto do rio, no acampamento. E perguntou, numa alegria 
incontida:
- Voc sabe o quanto desejo montar aqueles magnficos cavalos rabes. Quando poderei faz-lo?
- Amanh, se quiser. Suponho que deva ter uma roupa de montaria mais... discreta.
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Mais uma vez, ele conseguiu provoc-la e, corando, os olhos dardejando, Ileana disse:
- Ningum vai me dizer o que devo ou no devo vestir! Alm do mais,  impossvel domar um cavalo usando uma saia!
- Nesse caso, ento, eu amanso e treino os cavalos para voc.voudeixar bem claro, Ileana: nunca mais, enquanto for minha esposa, vai usar essas ridculas calas 
de montaria!
- Sendo assim, quanto mais cedo voltar para as montanhas, melhor! Ou talvez eu possa me ver livre de voc de outra forma!
Ela falou impulsivamente e, imediatamente, percebeu que havia ido longe demais.
Mas o prncipe apenas inclinou sua cabea para trs e riu.
- Pensei que no precisasse mais impression-la quanto ao que posso fazer se no me obedecer. Sabe muito bem que sempre consigo o que quero e  minha maneira. Se 
no seguir as regras ditadas por mim. vai se arrepender, no tenha dvidas!
- Est, por acaso, pensando em me bater? - Seu tom de voz era provocativo. - Vai aoitar-me em casa ou em praa pblica?
- Depende, Se a lio servir de exemplo para todos os que transgredirem as leis, a Praa do Mercado ser um lugar excelente para punio.
Embora Ileana soubesse que ele estava apenas brincando, tinha a horrvel sensao de que Vladilas no hesitaria em puni-la, se ela realmente desobedecesse s suas 
ordens. - Est mesmo conseguindo tudo a seu modo, no? - disse ela, com raiva. - Tem meu povo na palma da mo; esses velhos ministros e polticos esto maravilhados, 
vendo-o como um salvador do pas, j que eles so uns incompetentes. E isso basta para ench-lo de orgulho!
 - Fico feliz em saber que tem o bom senso de reconhecer que seus ministros e polticos so incompetentes.  um crime deixar o pas to negligenciado! Esto pondo 
em risco, se no a vida dos cidados, pelo menos sua liberdade!
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Ele falava de modo severo e Ileana s podia lhe dar razo, embora ouvisse tudo sem responder. Vladilas foi alm:

- Voc mesma tem uma parte de culpa. Apesar de ter muita imaginao e inteligncia, o que no  comum numa mulher, no conseguiu ver o que est mais do que evidente: 
a Hungria, a Romnia ou a Srvia podem engolir Zokala sem precisar, para isso, perder um soldado sequer!
Apesar de reconhecer que ele estava certo, Ileana respondeu, com raiva:
- Essa  uma histria que inventou em seu prprio benefcio e quer que todos acreditem nela. Os pases vizinhos sempre foram encantadores e nossas relaes diplomticas 
so as melhores possveis. J recebi muitas propostas de casamento de vrios prncipes desses pases e no acredito em uma s palavra dessa sua histria fantstica 
e assustadora.
- Agora, est se comportando como criana. Novoumais discutir com voc, porque j percebi que no vai admitir que tenho razo, embora saiba muito bem que estou 
certo.
- Reconheo que, de fato, essa discusso est sendo improdutiva. Mas tambm acho que no precisa insistir tanto na necessidade de defesa do pas.  evidente que 
essa sua teoria j foi um passo e tanto para conseguir o que queria.
- Claro - replicou ele, calmamente -, e quem poderia dizer isso com tanta diplomacia como voc, minha querida?
Apesar de profundamente irritada com aquele tom irnico, ela se conteve e respondeu apenas:
- Voc est tentando transformar este pas em um arsenal para a destruio. Fique sabendo que estamos muito felizes como somos e como foram nossos antepassados: 
um povo pacfico. Vivemos muito bem cuidando das colheitas, para nossa alimentao; nossas mulheres fazem belos trabalhos de artesanato e criamos cavalos que, embora 
no possam ser comparados aos seus puros-sangues rabes, so os melhores em toda a Europa.
- Cavalos! Claro que essa  uma palavra muito significativa! Voc sempre foi obcecada por cavalos! Por isso no quer
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ver nada mais  sua frente. Quanto pensa que dura um cavalo em um combate, com essas armas modernas, que so capazes de, com apenas um tiro, fazer o mais belo animal 
cair por terra? De que nos vale um animal veloz, se for mortalmente atingido?
A voz dele tinha uma nota sria e triste, ao continuar:
- Se pudesse ver, como eu vi, o sofrimento dos cavalos feridos, nos campos de batalha!  de cortar o corao ouvir seus relinchos de agonia, quando atingidos por 
balas ou dilacerados por granadas e tiros de canho. Ficam por ali, largados, sem que ningum ligue para eles, imprestveis que so! Algum dia, iro inventar um 
tipo de veculo que possa substituir os cavalos em um combate.
- O que voc quer dizer? - ela perguntou, impressionada com o que acabara de ouvir.
- Acredito que, no futuro, os homens, se quiserem se matar uns aos outros, com certeza o faro sem envolver os pobres animais, que no tm culpa das loucuras dos 
seres humanos.
Percebendo que o prncipe se mostrava sensvel ao sofrimento dos animais, Ileana j no sentia raiva dele. Um homem com tais sentimentos no podia ser mau.
Impulsivamente, ela se aproximou de Vladilas.
- Tem razo. Eu, se pudesse, gostaria de fazer alguma coisa para evitar que os animais sofressem.
-  mesmo? Bem, mas, no momento, quero apenas que veja se meus cavalos so to bons como os seus. Ou melhores!
- Jamais admitirei que meus cavalos no so os melhores

- disse ela. - Posso, com Sat, desafiar qualquer um de seus puros-sangues.
O prncipe franziu as sobrancelhas e ela explicou:
- Sat  meu garanho. Considero simplesmente impossvel haver um cavalo mais veloz.
-  um desafio que estou disposto a aceitar; alm, claro, de muitos outros desafios que est sempre me fazendo.
Sem entender muito bem o que ele queria dizer, Ileana olhou para o prncipe, e percebeu que ele a fitava, demoradamente.
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Novamente, agindo num impulso, ela perguntou:
- Est me comparando com as mulheres gregas? Pelo modo como falou sobre sua me, imagino que considera as mulheres gregas as mais lindas do mundo.
- Isso  verdade. H apenas uma nica exceo.
- Qual?
- Voc!
Ela encarou-o, atnita, e perguntou:
- Est, realmente, fazendo-me um elogio?
- Estou apenas constatando um fato. Voc  linda, Ileana! No entanto,  muito diferente das mulheres gregas, que so morenas e, como minha me, mais suaves, mais 
ternas e mais femininas.
Ileana ficou tensa. As palavras dele eram a descrio perfeita da jovem grega que havia cuidado dela quando estivera no acampamento, na noite anterior. Na certa, 
a jovem Thelia deveria significar muito para Vladilas.
- Sinto muito se o desaponto - ela disse, com calma. Mas  evidente que voc s se casou comigo para assegurar o trono de Zokala. No teve escolha. De certa forma, 
posso dizer que "comprou gato por lebre"!
- No acredito nisso. E, se estamos casados, devemos ver nossa unio com inteligncia.
- Gostaria de saber o que quer dizer com isso.
- Posso explicar?
Imediatamente, ela lembrou-se da noite anterior, quando o ameaara com a adaga. Podia quase senti-lo novamente, dominando-a, o corpo dele sobre o seu, a dor no pulso, 
a raiva e o desamparo que se seguiram.
Tais lembranas deixaram-na, mais uma vez, confusa, insegura e com raiva. Ento, disse com frieza:
- Voc foi bastante eloqente ao revelar quem . Entretanto, o fato de eu saber que estou casada com um prncipe no muda em nada os meus sentimentos a seu respeito. 
Como lhe disse ontem  noite, odeio voc! S farei o papel de sua esposa em pblico, porque isso  para o bem de meu povo.
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Mas, se vier a aproximar-se de mim quando estivermos sozinhos, juro que encontrarei um meio de mat-lo!
Houve uma pequena pausa depois que as palavras de Ileana ecoaram pelas paredes decoradas da sala.
- Agora sabemos exatamente com quem estamos lidando.
- Isso mesmo! Portanto,  bom que tenha muito cuidado! Da prxima vez, no serei to tola a ponto de cair naquele velho truque.
- Realmente,  muito engraado voc vir com ameaas! ele disse.

Preferindo no responder, ela se dirigiu para a porta, com passos firmes. Nesse exato momento, a porta se abriu e o mordomo anunciou:
- O primeiro-ministro, alteza, o camareiro-mor e sua reverendssima, o arcebispo!
Os trs homens entraram na sala e, depois das saudaes, o primeiro-ministro disse a Ileana:
- Tenho o doloroso dever de inform-la, alteza, que sua majestade, o rei Milko, est morto.
- Morto! - repetiu ela, tomada pela surpresa.
Desde que chegara, ela estava querendo ir ao quarto ver o pai e no o fizera. Arrependia-se de ter ficado ali, brigando com Vladilas. Agora, seu pai estava morto!
Tinha conscincia de que ele no se recuperaria, pois estava em coma h seis meses. Entretanto, naquele instante, ouvindo aquela notcia, teve um choque e no pde 
evitar as lgrimas. Juntando as mos, ela fez uma prece silenciosa.
O primeiro-ministro disse, ento, em voz solene:
- O rei morreu! Viva o novo rei!
E, acabando de pronunciar tais palavras, ele se ajoelhou diante do novo rei e da nova rainha.
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CAPTULO VI
Terminadas as cerimnias do funeral, Ileana estava tranqila, pois tudo havia sido muito bem organizado.
Vladilas se empenhara para que os numerosos visitantes ilustres e os parentes fossem bem recebidos e tambm havia cuidado de todos os preparativos, sem esquecer 
nenhum detalhe.
O cortejo fnebre fora extremamente impressionante, no s pela pompa, mas tambm pelo nmero de pessoas que compareceram. Reis, rainhas, prncipes e princesas de 
diversos pases e muitos parentes, ilustres ou no, vieram para as cerimnias e haviam se hospedado no palcio, com todo luxo e conforto.
Tudo fora feito e supervisionado por Vladilas, e Ileana reconhecia que ele desempenhava muito bem toda e qualquer tarefa que tivesse que executar. Se ela ou os ministros 
tivessem que cuidar daquilo, certamente no o fariam com tanta eficincia.
Os velhos generais, no entanto, no viam o prncipe com simpatia, pois no gostavam de receber ordens, acostumados que estavam a d-las.
Embora houvesse muitos hspedes no palcio, os "chefes" e cozinheiros, com o auxlio extra do prprio pessoal de Vladilas, haviam conseguido desempenhar sua tarefa 
com, at mesmo, brilhantismo.
E, apesar de ser uma ocasio tristonha, de luto e sobriedade,  mesa de refeies a conversa era animada e inteligente, havendo at risos.
Vladilas e Ileana sentavam-se um em cada extremidade da longa mesa. Olhando para o marido, que ocupava o lugar de seu pai, ela no podia deixar de admirar o seu 
porte, o ar majestoso, as maneiras elegantes. Ele era, de fato, um belo e magnfico rei, com seu uniforme de comandante-em-chefe do exrcito de Zokala, que, no brilho 
de suas cores, se sobressaa dos trajes escuros ou negros dos visitantes.

Ileana, por sua vez, detestava ter que usar um longo vu negro, pois se sentia parecendo um corvo. Entretanto, a cor negra realava-lhe no s a pele clara e translcida, 
como tambm seus cabelos dourados, com reflexos avermelhados, alm de formar uma moldura para seu rosto perfeito.
Seus olhos verdes brilhavam como duas esmeraldas. Ela estava mais linda do que nunca e muitos dos prncipes dos pases vizinhos olhavam-na com admirao, embora 
se sentissem preteridos por ela no haver aceitado a oferta de casamento deles.
Depois do encerramento do funeral, quando a maioria dos parentes e dos reis e rainhas j haviam partido, Ileana estava sozinha na "sala da rainha", quando o prncipe 
Tomilav entrou.
Ela sorriu e estendeu-lhe a mo dizendo:
- Estou contente por ter sido voc o enviado para representar o seu pas nos funerais. Felizmente, no mandaram nenhum ministro desagradvel, como o da Hungria.
O prncipe Tomilav sorriu, concordando com o que ela dizia. De fato o ministro hngaro havia deixado bem claro que seu interesse no era prantear o falecido rei, 
mas inspecionar as armas e os canhes que Vladilas deixara ostensivamente em diversos pontos.
O prprio atade do rei Milko havia sido transportado por uma carreta de canho diferente de qualquer outra que pudesse existir em toda a regio dos Blcs.
E, ainda, para mostrar que Zokala estava bem preparada para uma eventual guerra, as tropas de cavalaria, os canhes e as armas estavam dispostos nas laterais do 
palcio e das ruas, fechando todo o percurso por onde iria passar o cortejo fnebre.
- Quanto a meu pas - disse Tomilav -, voc sabe que jamais lutar contra o seu. Eu, porm, j desisti de lutar por
seu amor.
Ileana podia perceber que ele estava sendo sincero e no ignorava que continuava apaixonado por ela.
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- S espero, Tomilav, que continuemos amigos, como sempre fomos - disse ela, amavelmente.
- Sempre a amei e no  grande consolo pensar que seremos apenas amigos. Se voc tivesse aceitado o meu amor, tenho certeza de que seramos muito felizes.
Ela suspirou, pensando que talvez tivesse sido bem melhor se houvesse aceitado o pedido de casamento dele. quela altura, no estaria casada com o homem tirano que 
a forara a tornar-se sua esposa.
Ocorreu-lhe tambm que, se fosse atenciosa para com Tomilav, estaria de certa forma se vingando de Vladilas e resolveu dizer suavemente:
-  muito tarde agora! No h nada que possamos fazer. quanto a isso.
Suas palavras fizeram os olhos do prncipe brilharem e ele segurou as mos dela nas suas, dizendo:
- Eu a amo, Ileana! Passo noites sem dormir pensando s em voc. Quando soube que havia se casado, quis suicidar-me.
- No! No! No fale assim! Casei-me com Vladilas apenas para salvar Zokala, uma vez que paira sobre ns a ameaa de sermos invadidos pela Hungria. com certeza, 
vendo todas as armas que temos, eles se detero.
- Voc no o ama? Jura que no o ama? - disse o prncipe, ansioso.

- Detesto-o! E agora ele  meu marido, o rei. No tenho como fugir ao meu destino.
- Minha querida, se, pelo menos, eu pudesse tir-la daqui e faz-la feliz.
Ele beijou-lhe a mo apaixonadamente e Ileana nada fez para impedir aquele beijo ardente e demorado.
Depois, olhou para ele com o olhar meigo e suplicante. Tomilav jamais a vira to suave e apaixonada.
- Se voc algum dia me quiser - disse ele, enlouquecido -, saiba que virei imediatamente ao seu encontro, mesmo que esteja no fim do mundo. Voc sempre foi a mulher 
de minha vida! Ser impossvel eu amar outra pessoa.
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- No pode dizer isso, nem pensar assim - disse ela rapidamente. - Tem que me esquecer.
- Isso nunca vai acontecer! Ela suspirou.
- Jamais me esquecerei de que  meu amigo. Um grande amigo.
Seu tom de voz era to terno e o encorajava tanto, que o prncipe estava dominado pela emoo. Pondo as mos nos ombros dela, pediu, com voz rouca:
- Creio que jamais voltarei a v-la. Antes de partir, porm, deixe-me beij-la.
Por um momento, ela hesitou. Entretanto, considerou que no havia razo para negar o pedido dele. Tomilav a amava como pessoa; no a via como um degrau para conquistar 
um trono.
O prncipe tomou a sua hesitao como consentimento e abraou-a. Quando seus lbios se aproximaram dos dela, Ileana voltou-se e ele beijou-lhe o rosto.
- Eu a amo tanto, querida, tanto! - sussurrou ele, na
mesma voz rouca.
Nesse instante, a porta se abriu.
Vladilas entrou na sala e caminhou at eles. Quando o prncipe Tomilav o viu, afastou-se imediatamente de Ileana.
Ela olhou para o marido. Jamais vira um homem com expresso to furiosa, to transtornada, nem to assustadora! Parecia uma guia ou outra ave predadora, pronta 
para atacar. Havia dio em seus olhos.
- Saia daqui! - ele vociferou, fazendo um gesto para expulsar o prncipe Tomilav. - Se no deixar o palcio em quinze minutos, juro que o matarei!
Aquelas palavras veementes ecoaram pela sala e Tomilav, muito plido, encaminhou-se para a porta. Procurando manter sua dignidade ele andou bem ereto, alcanou a 
maaneta, girou-a e deixou a sala.
Vladilas acompanhou-o com os olhos e, quando a porta se fechou, ele virou-se para Ileana.
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Embora tentasse manter seu olhar desafiador, seu corao disparava e ela se sentia aterrorizada.
- Como ousa fazer uma coisa dessas! - disse ele, furioso.
- Como ousa deixar algum homem toc-la, sendo minha esposa?
Ileana ergueu a cabea, altiva.
- Uma esposa de convenincia! Uma esposa para voc concretizar suas ambies! No tem o direito de interferir quando estou com meus amigos.
- Amigos? Voc chama o que eu acabei de ver uma demonstrao de amizade?

Ele olhou para ela, para seus cabelos, cujos reflexos vermelhos estavam maravilhosos; aqueles olhos verdes desafiavam-no. Ele perdeu o autocontrole.
Pegando-a pelos ombros, apertou com firmeza sua pele delicada e a sacudiu com fora.
Ela parecia um pequeno brinquedo em suas mos, um animalzinho indefeso. Tanto a agitou para a frente e para trs, que os grampos se soltaram dos cabelos de Ileana 
e as longas e pesadas tranas, que estavam presas em um coque sobre a nuca, caram-lhe pelas costas.
Sem flego, ela tentou afast-lo, mas Vladilas a puxou de encontro ao seu peito, dizendo furioso:
- Se so beijos o que deseja, por que no receb-los do homem que tem todo o direito de beij-la?
Ele pressionou seus lbios contra os dela, e a beijou com fria, com mpeto.
Em vo, ela tentava escapar e gritar. Queria suplicar-lhe que a deixasse, porm era impossvel fugir daqueles braos musculosos, feitos de ao.
Cansada demais para continuar a reagir, Ileana deixou-se beijar. E, percebendo a suavidade dos lbios dela e a sua inexperincia, Vladilas foi dominando a raiva 
e passou a beij-la mais suavemente.
Depois, os beijos dele passaram a ser mais exigentes e, ao
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mesmo tempo, ternos. A dor que ela sentia desapareceu, e uma deliciosa sensao de abandono a invadiu.
Leana jamais havia sido beijada e no imaginara que uma mulher podia ficar daquele modo, cativa nos braos de um homem, sem querer fugir.
Embora, racionalmente, pensasse que devia escapar de Vladilas, seu corpo pedia para ficar ali, envolvida naqueles braos fortes. Seus lbios ansiavam por novos e 
calorosos beijos e ela desejava reviver aquelas emoes, to diferentes de tudo que j havia sentido at ento.
Seu corpo todo vibrava, como se uma onda a envolvesse, a arrebatasse e ela se deixasse levar. Era como se no mais se pertencesse, mas pertencesse a Vladilas.
Seu peito arfava, seus pensamentos eram totalmente contraditrios e seu corpo negava-se a obedecer  razo. Ela desejava aquele homem. Sim, queria-o perdidamente.
E, ento, ele a soltou de seus braos.
Sem dizer uma palavra, sem nem mesmo olhar para ela, Vladilas saiu da sala, batendo a porta com fora. Ileana ouviu os seus passos, caminhando apressado pelo corredor.
Por um momento, ela ficou ali, parada, com a sensao de que havia sido levada pelas ondas do mar, at atingir grandes alturas, mergulhara depois na imensido do 
oceano e fora deixada na praia.
Ainda trmula, ela sentou-se em uma poltrona e fechou os olhos. Parecia ainda sentir as mos fortes magoando-lhe a carne e seus lbios pareciam queimar.
E, lentamente, Ileana foi tomando conscincia de que o estranho sentimento que a dominava era algo avassalador e inexorvel, do qual parecia no ter foras para 
escapar.
Sentia-se confusa, sem saber o que pensar. Aquele homem era, realmente, uma surpresa para ela.
Ouviu passos e arranjou rapidamente os cabelos. A porta da sala se abriu e um dos ajudantes-de-ordens disse, sem entrar:

- Desculpe-me, majestade, mas o rei Otto, da Grcia, vai partir e deseja despedir-se.
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- Obrigada. Irei em um minuto.
O criado curvou-se respeitosamente, fechou a porta e saiu. Eleana apanhou depressa alguns grampos que haviam cado no cho e ajeitou melhor os cabelos. No importava 
o quo conturbada sua vida estivesse, deveria sempre aparecer em pblico com a dignidade de rainha que era.
Enquanto caminhava pelo longo corredor, em direo ao salo, lembrou-se de que, quando era adolescente, sempre imaginara que os reis e rainhas eram pessoas frias, 
insensveis, feitas s para governar com o crebro e no com o corao. Pareciam invulnerveis s emoes humanas.
No entanto, ela mesma via-se dominada por sentimentos os mais desencontrados, os mais contraditrios. No seria capaz sequer de traduzir em palavras o que se passava 
em seu ntimo. Dentro do peito, seu corao batia de maneira estranha.
"Como isso pde acontecer comigo? ", pensava, enquanto era invadida por uma terrvel surpresa: a de que o seu futuro, ao lado de Vladilas, seria cheio de sobressaltos.
Na manh seguinte, depois que o ltimo visitante havia partido, tudo ficou extremamente calmo. At ento, o palcio vivera dias de muito movimento, com muitos hspedes. 
Alm dos chefes de Estado ou de seus representantes, havia tambm a comitiva de cada um deles.
Eram palafreneiros, secretrios, camareiros e criados particulares. Um dos monarcas trouxera, alm de seu mdico, um pedicuro.
Observando tudo aquilo, Ileana pensava que, se Vladilas fosse um marido com quem se sentisse  vontade, com quem pudesse conversar, quando estivessem a ss, haveriam 
de dar boas risadas lembrando-se de tais hspedes.
Poderiam trocar impresses, por exemplo, sobre o que os visitantes teriam pensado ao ver como o exrcito de Zokala era agora poderoso. Apenas o fato de verem todo 
o armamento em exposio os teria desestimulado de qualquer inteno de atacar Zokala.
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Entretanto, considerando o que acontecera, Vladilas certamente no conversaria com ela. Durante as despedidas dos hspedes, ele evitara o seu olhar e, quando ficavam 
juntos, assumia sempre uma atitude muito formal.
Depois que o ltimo visitante partira, ele a acompanhou at as escadas, inclinou-se respeitosamente, num cumprimento silencioso, e saiu, enquanto Ileana subia as 
escadas.
Era evidente que ele estava muito zangado e, chegando ao seu quarto, ela pensou em quanto tempo duraria aquela indiferena entre eles. Aquela atitude de Vladilas, 
ignorando-a, doa muito mais do que se estivessem brigando.
E, admitia, ela adoraria discutir com ele, travar um duelo de palavras, pois, j que no conseguia feri-lo, pelo menos o provocava.
No entanto, o que via pela frente seriam dias longos, montonos, cheios de frustrao. E, certamente, ele no a procuraria para nada, pois seria capaz de dirigir 
tudo sozinho.

Mais uma vez, ela teve de reconhecer que Vladilas era o homem com quem seus ministros sonhavam para governar o pas. Na verdade, eles sempre haviam se ressentido 
de receber ordens de uma mulher. Estava plenamente consciente de que, naquelas circunstncias, eles no desejavam mais que ela assistisse s reunies e, se dependesse 
deles, no tomaria parte na administrao do reino.
Mas ela haveria de lutar!
Ento, lembrou-se de como se sentira frgil e impotente nos braos fortes de Vladilas. Odiou-se por ser mulher e no um homem.
- Seria agora o rei, se fosse um homem! - disse para si mesma, desgostosa.
Desejava usar seu traje de montaria e treinar seus cavalos, sentir-se livre. Mas at isso no podia fazer, se quisesse obedecer Vladilas.
era tarde e o sono no vinha. Virava-se de um lado para outro, agitada e impaciente. Jamais poderia suportar uma vida daquelas, to montona, dentro do palcio brincando 
de rainha.
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Pela manh, estava com os olhos pesados, mas levantou-se assim que a acordaram.
Decidiu que no usaria seu traje sombrio, de luto; o dia estava realmente lindo e uma roupa como aquela no condizia com to radiosa manh. Ela desceu e foi at 
a "sala da rainha", pensando no que Vladilas poderia estar fazendo.
Havia muitas cartas sobre a escrivaninha, todas prestando condolncias, que ela teria de responder. Porm deixou-as de lado. No se sentia disposta a fazer aquilo 
no momento.
No havia nenhuma carta ou documento que se referisse aos assuntos do reino, que, durante a doena de seu pai, ela passara a ver e a assinar. Tambm isso j havia 
ficado aos cuidados de Vladilas. Alm do mais, ele j estava pondo os seus planos em ao e comeara a analisar os atos do Parlamento, recebendo todo apoio e todo 
respeito dos ministros. Ouviam tudo o que ele dizia, encantados, e no ousavam sequer dar suas opinies.
Tais pensamentos fizeram com que Ileana sentisse uma raiva sbita e, num impulso, jogou toda a pilha de cartas no cho. Era esse tipo de atividade que teria de fazer, 
daquele momento em diante, at morrer.
Sua raiva foi passando aos poucos, enquanto ela ficou de p, olhando para as cartas espalhadas pelo cho. Sentiu uma vontade imensa de chorar. Subitamente, a porta 
se abriu e Vladilas entrou na sala.
Mesmo contra toda a lgica e o racionalismo de Ileana, seu corao comeou a bater acelerado ao ver o marido.
Ele no vestia seu uniforme, mas um traje de montaria, que o deixava extremamente encantador.
- Vim dizer-lhe que estou de partida para Mispa - disse ele, com voz fria e distante.
Os olhos de Ileana revelavam a surpresa com que fora apanhada e ele continuou:
- Levarei comigo todas as pessoas que vo se estabelecer por l. Como pretendo deix-los bem instalados, talvez haja
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muita coisa para fazer. Desse modo, poderei demorar-me talvez uns dez dias, ou mesmo umas duas semanas.
Houve uma pausa, mas ela se manteve calada e ele prosseguiu:

-  evidente que j providenciei para que todos os papis importantes sejam levados at Mispa diariamente. Espero, porm, que voc cuide dos outros assuntos que 
surgirem durante a minha ausncia.
Terminando de falar, como se no esperasse resposta alguma, ele virou-se para deixar a sala.
Quando j estava perto da porta, ela conseguiu dizer, um tanto desajeitada:
- Deixe-me ir. com voc!
Vladilas deixou a porta entreaberta, parou e, voltando-se para Ileana, perguntou:
-  isso mesmo que voc quer? Impulsivamente, ela foi para perto dele.
- Sim! Por favor... por favor... leve-me com voc. Ele olhou-a por um momento, como a se certificar de que
estava ouvindo bem. Depois, notando o olhar suplicante dela, disse:
-voumandar que selem Sat para voc. Partiremos dentro de uma hora.
Antes que Ileana pudesse responder, ele saiu.
com medo de que Vladilas partisse sozinho, ela subiu depressa para seu quarto para preparar-se para a viagem.
Foi com um sentimento de satisfao, que a aquecia como o calor do sol, que Ileana notou, enquanto cavalgava ao lado de Vladilas, que ele no estava mais zangado 
com ela.
Ela estava muito bonita e seus olhos brilhavam. Vestira um elegante traje branco, bem leve e prprio para um dia quente como aquele. Sua criada de quarto havia sugerido 
que vestisse roupa preta, devido  morte recente do pai, mas ela se recusara terminantemente. Como complemento, usava luvas brancas e um chapu de montaria, enfeitado 
com uma longa faixa de musselina, cujas pontas caam-lhe nas costas. Em uma das mos,
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segurava um chicote de couro, com cabo de marfim cravejado com pequenos diamantes.
Estava muito quente e, sem dvida, seria bastante cansativo cavalgar at Mispa. Ela olhou para os picos mais altos das montanhas, que ainda conservavam alguns vestgios 
de neve, e, com isso, pareceu sentir menos calor.
Desde o funeral, ela no havia mais montado Sat e o animal estava irrequieto e refugava bastante, parecendo demonstrar que apreciava mais sua vida de liberdade.
Ileana percebeu que Vladilas a observava com um brilho nos olhos, mas ela estava decidida a provar que Sat era um cavalo extraordinrio e que ela era uma excelente 
amazona.
Para sua surpresa, em vez de deixar que um dos cavalarios a ajudasse a montar, ele mesmo a ergueu e a colocou na sela. Em seguida, ajudou-a a arrumar a saia rodada, 
feita para cavalgar. Ela teve a impresso de ver um ligeiro sorriso nos lbios dele, como se estivesse demonstrando que, afinal, sara vitorioso em sua determinao 
de que jamais cavalgaria usando cala comprida.
Naturalmente, ela mesma tambm se achava muito mais feminina usando aquele traje branco de musselina, com babadinhos de renda ao redor do pescoo.
Finalmente, Vladilas montou em seu cavalo, um magnfico puro-sangue, de pescoo forte e arqueado, sinal evidente de sua raa rabe. A viagem, ento, comeou.

Quando se aproximavam do vale, ela percebeu que Vladilas, com sua inimitvel eficincia, j havia organizado tudo para que seu povo pudesse se estabelecer em Mispa 
e uma grande multido esperava por ele l em baixo.
Eram milhares de homens, mulheres e crianas com suas carroas e todos os seus pertences. Havia tambm grandes carretas, lotadas com madeira e outros materiais de 
construo, alm de cabras, burros, vacas e aves, que tambm seguiam com o povo. Alguns animais estavam amarrados com cordas s carroas e carrinhos, enquanto outros 
eram puxados pelos prprios donos.
Era, sem dvida, uma cena bonita e comovente. Todas aque103
Ias pessoas teriam uma ptria e um verdadeiro lar, como novos pioneiros, que iriam fazer parte da histria de Zokala. Ileana no pde deixar de dizer, comovida:
- Parecem os israelitas, indo para a Terra Prometida.
- Acredito que o Vale Mispa ser mesmo a Terra Prometida para o meu povo. S sero felizes quando tiverem seus lares e sua ptria.
- O que aconteceu com seus lares?
Vladilas fez uma pausa e ela notou-lhe a hesitao. Imaginou que talvez no quisesse falar sobre esse assunto, mas ele continuou:
- Algumas dessas pessoas so filhos dos amigos leais que seguiram meu pai, quando ele deixou Zokala. Outros deixaram seus pases por motivos os mais diversos. E 
outros, ainda, so fugitivos.
- Quer dizer que so criminosos?
- No costumo fazer perguntas a quem me procura para ter refgio e proteo, e jamais recuso abrigo.
Houve um pequeno silncio, aps o que ela perguntou:
- Voc acha que sero felizes, aqui, sob seu governo?
- Espero que sejam. Voc-e eu devemos nos empenhar para que sintam que este  verdadeiramente seu pas de adoo. Desse modo, iro trabalhar pelo bem desta nova 
ptria, que, de agora em diante,  to deles quanto nossa.
Aquelas palavras surpreenderam Ileana, pois ele a inclua em seus planos de governo. Sat, porm, estava impaciente e ela disse:
- No  melhor continuarmos a viagem? Caso contrrio, esse povo todo vai pensar que nos esquecemos dele.
Vladilas sorriu, concordando e ela chicoteou Sat, partindo a todo galope. Sabia que ele a seguiria com mais velocidade, para passar  frente, pois jamais recusava 
um desafio.
Os dois galopavam pelo terreno coberto de grama e de flores, ouvindo o barulho cadenciado dos cascos dos animais e sentindo o vento contra seus rostos.
Aquela sensao lhe proporcionou tanta alegria, que Ileana,
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pela primeira vez, desde que conhecera Vladilas, sentia-se livre de toda a opresso e angstia que antes a dominavam.
- Venci, no venci? - perguntou ela, sabendo que havia ganho a corrida por questo de centmetros.
- Empatamos - disse ele com firmeza. - Chegamos juntos, e  assim que deve ser sempre.
Novamente, para sua surpresa e alegria, ela percebeu que Vladilas no se referia apenas  corrida.
- J esperava por essa resposta - disse Ileana olhando-o firmemente.

Ele, entretanto, j estava de costas, dirigindo-se, rpido, para a multido. Ela tambm voltou-se depressa e esporeou Sat, para no ficar para trs.
Quando chegaram a Mispa, ele comeou a dar ordens para o pessoal, indicando-lhes o que fazer e os lugares onde cada famlia deveria se alojar, Ileana pde ver, ento, 
mais de perto aqueles estrangeiros, que passariam a ser seus sditos.
Foi nesse momento que viu Thelia. Ela estava linda, sentada no banco da frente, em uma carroa coberta com lona, junto com muitas outras mulheres e um bando de crianas.
Usava um chapu com aba bem larga, para proteger-lhe o rosto, amarrado com fitas cor-de-rosa, que realavam sua pele e contrastavam com a cor escura dos cabelos. 
Ela no reparou que Ileana a observava, pois no tirava os olhos de Vladilas. O amor que ela nutria por aquele homem transparecia em seu rosto e em seu olhar.
Ileana voltou-se, bruscamente, afastando-se dali.
Logo depois, ela e Vladilas estavam galopando, em direo ao castelo, que ficava no fim do vale
Cercado por um denso bosque, atrs do qual erguiam-se as montanhas, Ileana percebeu que ele no diferia muito dos castelos que j tinha visto na Bavria. As pequenas 
torres, apontando para o cu, sobressaindo-se entre a vegetao, davam  cena um ar de encantamento.
- Receio que ache o castelo muito rstico, e no muito conservado - disse Vladilas, quando j estavam bem prximos. 105
J mandei que limpassem tudo, mas, como ficou muito tempo fechado e os caseiros so bem velhinhos, talvez precisemos fazer alguns reparos.
- Ningum morou aqui desde que seu pai deixou o pas? Ele meneou a cabea, dizendo:
- No. Mas eu sempre esperei voltar a morar aqui. Considero este castelo o meu verdadeiro lar.
Seu tom de voz era comovente e ela desejou que ele jamais se desapontasse com a escolha que fizera.
Ao entrar, pde constatar que tudo estava muito bem arrumado. Os cmodos eram muito bem decorados e havia flores por toda parte. Quem quer que tivesse arrumado o 
castelo fora muito caprichoso com cada detalhe.
A alegria que as flores emprestavam ao ambiente conseguia at mesmo disfarar as cortinas e os tapetes j desbotados e o desgaste do estofado das poltronas e dos 
sofs. 
Embora o castelo no tivesse a beleza romntica nem a riqueza de seu palcio, ela achou-o maravilhoso, de um encanto e de um mistrio especial.
Nas paredes, havia quadros com retratos dos antepassados de Vladilas, e a moblia, a despeito de precisar de uma camada de verniz, era trabalho dos mais renomados 
artesos do passado.
Vladilas a deixou ali e foi continuar seu trabalho. Precisava supervisionar o erguimento das tendas, onde o pessoal se acomodaria enquanto as casas no ficassem 
prontas.
Ileana continuou andando pelo castelo, percorrendo todos os cmodos.
De uma das janelas, ela avistava o rio que cortava o vale, com suas margens verdejantes e muito frteis. Mais ao longe, ficava o lago, enorme, que refletia em suas 
guas serenas no somente o cu azul, mas tambm os picos das altas montanhas.

"Eu poderia ser muito feliz aqui". ela pensou e, involuntariamente, completou seu pensamento "... com Vladilas".
Depois de estar no castelo, durante quase uma hora, sua bagagem chegou, trazida numa-carruagem puxada por seis cavalos.
Ela no quisera trazer nenhuma de suas velhas criadas para
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Mispa, uma vez que elas no gostavam de sair da rotina. Sua nova criada pessoal era Greta, uma jovem corada, que comeava a aprender as tarefas que lhe cabiam. Era 
esforada e queria fazer tudo corretamente.
Ileana gostava dela, apesar de reconhecer que era muito tagarela, defeito que as velhas criadas consideravam imperdovel.
- Como  lindo aqui, majestade! - Greta exclamou. Nem pude acreditar quando me disseram que eu viria trabalhar para vossa majestade!
- Estou certa de que vai desempenhar muito bem suas tarefas, Greta. E, agora, gostaria de tomar um banho e trocar estas roupas.
A criada apressou-se em ir preparar o banho e Ileana ficou admirando o quarto em que ficaria, que havia sido da av de Vladilas. Como o pai dele s viera a se casar 
no exlio, sua me no havia conhecido o castelo que o marido amava tanto.
Lembrando-se da me de Vladilas, que era grega, ela pensou em Thelia.
Talvez Thelia e Vladilas quisessem ficar juntos e ela havia estragado tudo pedindo para vir at Mispa.
Continuava a se perguntar por que ele no lhe havia dito com antecedncia sobre essa viagem. Afinal, iria ficar ausente pelo menos dez dias. Ser que desejaria passar 
esse tempo com Thelia? Seria ela o amor de sua vida?
Lembrava-se de como Thelia havia falado com carinho e meiguice sobre Vladilas. Ainda podia ouvir a voz dela, embargada pela emoo, quando dissera:
"Por favor, seja bondosa para ele.  um homem to maravilhoso!"
Claro! Vladilas amava Thelia! Ela era grega, como a me dele!
De repente, sentiu-se insegura, meio perdida, e dizia para si mesma:
" evidente que ele deve ter tido dzias de mulheres! Sendo um homem to bonito e vivendo como um cigano, sempre teve a oportunidade de ter a mulher que quisesse, 
por bem ou por
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mal. Alm disso, corre em suas veias o sangue de duas raas, consideradas ardentes. "
Procurou afastar de seus pensamentos o modo como ele a beijara, mas uma estranha sensao a dominava. Sentia-se perturbada. No queria mais pensar nem em Vladilas, 
nem em sua maneira possessiva, nem naquele beijo.
- O banho est pronto, majestade! - a voz de Greta interrompeu o curso contraditrio de seus pensamentos.
Ileana saiu do quarto e entrou no pequeno banheiro de forma octogonal, que ficava em uma das torres do castelo.
Terminado o banho, ela vestiu um traje de vero, elegante, porm bem simples, como convinha  vida no campo.

- Suponho que vossa majestade esteja com fome - comentou Greta. - J  mais de meio-dia.
Foi ento que ela se lembrou de que, se estivesse no palcio, o almoo estaria sendo servido. Mas Vladilas estava acostumado a ter apenas duas refeies por dia: 
desjejum e jantar.
Quando estavam com os hspedes que vieram para os funerais, ele sempre almoara com ela. Mas ali, no castelo, certamente no iria aparecer para a refeio.
De fato, estava certa. No demorou muito o capito Heviz a procurou, trazendo uma mensagem do marido.
- Sua majestade manda dizer que lamenta no poder vir almoar com vossa majestade, pois est muito ocupado. Ele espera que o desculpe e manda dizer que vir para 
o castelo assim que estiver livre.
- Tenho certeza de que sua majestade est mesmo muito atarefado - disse Ileana, sorrindo.
O capito Heviz mudou sua expresso formal e deu um ligeiro sorriso. 
- Est trabalhando mais do que qualquer um de seus homens! Ele  admirvel, no h ningum como ele, majestade.
Ela sorriu novamente, ao ver tanto entusiasmo na voz do capito, despediu-se e foi para a sala de jantar.
Foi-lhe servido um almoo simples, porm preparado com
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muito esmero. Pareceu-lhe que o toque mgico de Vladilas havia chegado at a cozinha.
Depois do almoo, ela continuou a explorar o castelo, desejando que Vladilas estivesse ao seu lado, contando-lhe detalhes sobre tudo o que via.
As telas, assim como muitos dos objetos, eram extremamente valiosos e era de admirar que, com tantos tesouros, o castelo nunca fora assaltado em todos aqueles anos.
Cansada por causa da viagem, resolveu subir e descansar em seu quarto.
Entretanto, em vez de se deitar, ela quis conhecer melhor seus aposentos.
Ao lado de seu quarto, havia o banheiro e uma saleta todos os cmodos tinham cortinas de seda. Na grande cama, tambm havia um cortinado, que descia de uma corola 
dourada, sustentada por dois cupidos.
A moblia e as molduras dos espelhos eram ricamente trabalhadas, com pinturas e entalhes feitos por artesos. No cho havia lindos tapetes, alguns de pele branca 
e outros, bem coloridos, tecidos a mo.
Nas paredes, estavam dispostos quadros valiosos, que deviam pertencer  famlia h muitas geraes. E, em todos os cmodos, vasos enormes, cheios de flores, deixavam 
no ar um agradvel perfume.
Ileana abriu uma das portas da saleta, que dava para um quarto masculino. Devia ser o de Vladilas. Havia ali uma cama enorme, toda entalhada e com quatro colunas. 
Na cabeceira, estava o braso da famlia e, sobre ele, o elmo do pai de Vladilas.
Tambm havia flores no quarto e tudo estava em perfeita ordem. Era difcil acreditar que h mais de trinta anos ningum dormia naquele quarto.
Ela saiu rapidamente do quarto, sentindo que invadia, de certa forma, a privacidade de seu prprio marido.
Finalmente, resolveu descansar um pouco.
Quando acordou, j estava escuro. L no vale, havia vrias

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fogueiras acesas em frente s tendas. Provavelmente os novos habitantes do vale, quela hora, preparavam seu jantar.
Ouvia-se, ao longe, o som dos violinos ciganos e ela teve vontade de ir ver os ciganos tocarem e danar. Imediatamente, porm, deu-se conta de que era uma rainha.
Um sentimento de revolta a invadiu de repente. Era inadmissvel que a sociedade pudesse ser to injusta para com as mulheres. Ningum reprovaria, nem ficaria chocado 
ou mesmo surpreso, se Vladilas fosse danar com seu povo. Mas, a ela, isso no era permitido.
Ileana sentiu-se pequena, tolhida, injustiada.
-voufazer o que eu quiser! - ela disse para si mesma, desafiadora. - E ningum vai me impedir!
Entretanto, foi obrigada a reconhecer que a sua voz no conseguia convencer nem a si prpria. Lembrou-se, ento, do incidente da cala comprida, que Vladilas a proibira 
de usar. Seria impossvel no obedecer ou tentar desafiar um homem como aquele.
Ela continuou a olhar as luzes dos acampamentos e bateu os ps, com raiva.
"Por que no me casei com Tomilav? ", perguntou-se, desalentada.
Por outro lado, recordava-se claramente da atitude de Tomilav, saindo da sala sem ao menos olhar para ela.
- Ele  um medroso - disse baixinho, num tom de desprezo, admitindo que no suportaria, nem teria respeito por seu marido, se ele fosse covarde ou no tivesse autoconfiana.
Nesse momento, Greta entrou no quarto e foi dizendo:
- Vossa majestade acordou!voupreparar o seu banho e espero que sua majestade volte logo!
- Ele ainda no chegou?
- No. Ainda est trabalhando no vale. Todos esto muito contentes em trabalhar com ele, porque est sempre de bom humor.
- E o que sua majestade est fazendo, Greta?
- Dizem que ele ora est aqui, ora acol. No pra. Enquanto isso, os ciganos tocam e danam para animar e as crianas estiveram brincando no rio. Parece uma festa!
O modo como a criada lhe contava o que se passava no acampamento revelava claramente a sua ansiedade em se juntar ao pessoal. Ileana no a censurava, pois tambm 
era esse seu desejo. Vladilas, porm, no a convidara para ir com eles.
Novamente, ela pensou em Thelia. Ela, sim, devia estar perto dele a todo momento.
A imagem da linda grega, sentada na carroa, sem tirar os olhos dele, no saa de seu pensamento.
Sentindo uma angstia e uma pontada no peito, ela disse, zangada:
- Ande logo com esse banho, Greta! No fique a fazendo tantos comentrios. Sabe muito bem que nada disso  de sua conta!
Embora reconhecesse que estava sendo injusta, Ileana precisava, de certa forma, ferir algum. Sentia-se s e magoada.
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CAPTULO VII
Na penumbra do quarto, Ileana sentia-se terrivelmente s. Jamais sentira, em toda sua vida, tamanha solido.

Ela havia escolhido um bonito vestido branco para usar durante o jantar. Apesar de estar de luto, preferia no vestir roupas pretas e sabia que seu pai aprovaria 
tal deciso.
Lembrava-se de que, quando sua me morrera, o pai pedia-lhe que usasse roupas brancas ou lilases, e dizia que detestava ver mulheres de expresso sombria.
"Agora que sou a rainha, fao o que quero", pensou, mas as palavras lhe soaram falsas. Na verdade, ela fazia o que o rei queria e, caso no obedecesse, enfrentaria 
a sua fria.
E Ileana j experimentara o desencadear dessa fria, quando Tomilav a beijara, despedindo-se.
Olhou-se no espelho e concluiu que nem mesmo os olhos crticos do marido achariam o menor defeito nela; estava impecvel. Desceu as escadas pensando em convencer 
Vladilas a deix-la ir com ele ao vale, no dia seguinte.
J passavam das oito horas e ela no o via desde aquela manh. Quando se dirigia para a sala de jantar, o mordomo veio a seu encontro, dizendo:
- Parece que sua majestade no vir para o jantar.
- Por que diz isso? - perguntou Ileana, um tanto rispidamente.
- Soube que houve um acidente e que sua majestade est prestando socorros.
- Um acidente? Ele est ferido?
- No, no. Disseram que no foi nada grave.
Embora essas ltimas palavras a tivessem acalmado, ela desejou poder ir imediatamente ao encontro do marido. Entretanto, teria que ficar ali, parada, esperando o 
tempo passar, at que Vladilas voltasse, se  que iria voltar naquela noite.
Ela jantou sozinha e foi servida por um nmero de criados que julgou excessivo. A comida estava deliciosa, apesar de a variedade de pratos ser tambm exagerada.
Terminado o jantar, ela se levantou e disse aos criados:
- Assim que sua majestade chegar, avisem-me. Estarei na sala de visitas.
Caminhou lentamente pelo longo corredor, com sua moblia marchetada e lindos quadros na parede, enquanto pensava em Vladilas. Estava mais do que evidente que ele 
no queria que ela viesse para o castelo. Era bvio tambm que no significava nada para ele e que seu marido se comportava como se ela no existisse. Agia como 
se fosse um homem solteiro, livre, sem a menor considerao para com ela!
s onze horas, cansada de esperar, Ileana subiu para os seus aposentos. Estava plenamente convencida de que Vladilas havia arranjado a desculpa do "acidente" para 
ficar bem longe dela. Na certa, estaria danando com os ciganos. E Thelia deveria estar com ele.
E era isso que teria de suportar, dali para frente, por ter se casado com um homem como aquele.
- Novouagentar, no posso! - disse em voz alta, sozinha na penumbra do quarto. - Novou-me sujeitar a esse tipo de vida!
Entretanto, no sabia o que fazer. O futuro se assemelhava a um longo tnel escuro, sem sada, onde havia somente o desespero.
Como ela vivia feliz, at cometer aquele engano fatal, em escalar o Monte Bela para espiar os pallikares! A conseqncia havia sido aquele desastrado casamento.

Antes, podia cavalgar  vontade, tinha oficiais da cavalaria para acompanh-la, desfrutava de autoridade e todos no reino a respeitavam.
Naquele momento, porm, Vladilas manejava a todos e podia fazer o que bem entendesse, inclusive com ela.
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Por tudo isso, deveria odi-lo, mas, estranhamente, no o conseguia. No fundo, at o admirava. Parecia-lhe impossvel deixar de admirar um homem com tanta determinao, 
inteligncia e personalidade.
Alm dessas qualidades, era um homem belo e forte. Devia ter lindas mulheres, como Thelia,  sua volta, com as quais se divertia. A esposa e rainha serviria apenas 
para ficar ao seu lado nas ocasies formais.
- Tudo isso  insuportvel! - gritou Ileana.
Sua voz, porm, se perdeu, abafada pelas cortinas de seda que, cerradas, escondiam as estrelas que brilhavam no alto do firmamento.
Ela sentia-se pssima. Seus pensamentos a atormentavam e ela virava-se de um lado para outro na cama, sem conseguir, ao menos, o alvio de um sono reparador.
Depois de, finalmente, ter cochilado um pouco, acordou sobressaltada, ouvindo um barulho leve. Parecia que havia algum mexendo no trinco de uma porta. Talvez fosse 
Vladilas chegando.
O quarto estava mergulhado na penumbra. A pouca luz que havia vinha da vela, que ardia na saleta.
Permaneceu imvel, esperando ouvir mais algum barulho. No devia, entretanto, nutrir esperanas de ver o marido. Mesmo que ele tivesse chegado do vale, certamente 
no iria procur-la, nem ao menos para lhe assegurar de que estava bem.
E por que deveria faz-lo? Mal falava com ela!
Por outro lado, ela era capaz de reconhecer que grande parcela do que acontecia era por sua culpa. Afinal, fora ela queml o escorraara sempre e at o havia ameaado 
com a adaga!
Cada vez com maior insistncia, duas cenas vinham-lhe a memria: Vladilas deitado sobre ela, suas mos apertando-lhe o pulso; e ele beijando-a com fria e mpeto, 
com seu jeito rude e dominador.
No conseguia definir muito bem o que sentia ao se recordar do que passara. Mas guardava bem ntidas aquelas cenas, como se as tivesse vivendo novamente.
"Ele tem toda razo de me odiar", pensou ela.
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Ileana teve, ento, uma idia que poderia no ser bem recebida, embora valesse a pena insistir. Iria propor uma trgua ao marido e sugerir que trabalhassem juntos 
pelo bem de Zokala.
As armas de Vladilas, certamente, teriam o poder de afastar a cobia dos inimigos, mas um pas no tinha apenas problemas blicos e ela poderia ajud-lo em muitos 
setores.
Enquanto imaginava que argumentos usaria para convencer o rei de que poderia ser muito til, ela ouviu, com bastante clareza, rudos acima de sua cabea. E no se 
enganava, pois estava bem desperta.
A princpio, o som era abafado, depois, mais forte e mais distinto.
Ela sentou-se na cama. Estava quase certa de que havia pessoas andando com cuidado numa das torres, acima de seu quarto.

De repente, uma srie de suposies comearam a invadir sua mente. Talvez um dos pases vizinhos, a Romnia ou, quem sabe, a Hungria, tivesse mandado soldados para 
invadir Zokala. Ali, estavam totalmente sem defesa, pois no tinham canhes, nem armas, em Mispa. Seria, de fato, um golpe inteligente invadir o pas pelo Vale Mispa, 
pegando a todos de surpresa.
O barulho voltava novamente, cada vez mais distinto, e Ileana, assustada, pulou da cama e correu para a saleta.
A vela, apesar de quase toda derretida, ainda estava acesa e ela pde ver o caminho at o quarto de Vladilas.
Abriu a porta, pensando no que faria se ele no estivesse ali. Precisava dele! Alguma coisa muito estranha estava acontecendo na torre.
Ao entrar no quarto, viu o marido sentado na cama, lendo alguns documentos  luz das velas que ardiam sobre os criados-mudos.
Vladilas levantou a cabea, surpreso ao v-la ali  sua frente, quela hora, vestindo apenas uma camisola leve e transparente.
Confusa, apavorada, ela disse com dificuldade:
- H gente l em cima. sobre o meu quarto, l na torre.
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Devem ser inimigos... Ouvi muito bem. Esto andando l em cima. e so muitos!
Por uns instantes, ele apenas olhou-a. Depois disse, com voz calma:
- Sinto muito por no ter lhe avisado antes. No so pessoas que fazem esse barulho. Voc estava ouvindo morcegos; h muitos deles na torre.
Ileana deu um grito agudo e, plida, correu para junto do marido, abraando-o com fora.
- Salve-me! No suporto morcegos! Morro de medo deles. Parecem diabinhos. tm ganchos nas asas!
Ela escondeu a cabea no peito dele, toda trmula e Vladilas tentou tranqiliz-la, envolvendo-a com seus braos e acariciando-lhe os cabelos.
- Est bem. Est bem. Fique calma! - disse ele, com voz profunda. - No vo machuc-la.
- Morcegos. me apavoram!
Os braos dele a apertaram com ternura.
- Prometo que no deixarei que lhe faam nenhum mal!
- Sempre tive horror desses bichos medonhos!
- Compreendo. So mesmo horrveis. Mas... pensei que no tivesse medo de nada. Sempre admirei sua coragem.
Sua voz era suave e bondosa e, talvez por causa da meiguice do marido ou devido  tenso, Ileana irrompeu num choro convulsivo.
- No sou. corajosa. coisa nenhuma. Tenho pavor de morcegos. Fico assustada quando estou sozinha... e morro de medo de. voc! Tenho medo de. que se zangue. comigo...
Ela tremia e as lgrimas rolavam-lhe pelas faces, cada vez mais copiosas. No conseguia controlar-se. Parecia uma criana desamparada, esquecida de quem era, sem 
se importar com o fato de estar ali, abraada ao homem que, apesar de ser seu marido, era um estranho.
Toda a angstia, decepo, mgoa, humilhao e dor acumuladas nos ltimos dias pareciam encontrar alvio naquele choro incontrolvel.

Vladilas continuou abraado  esposa, acalentando-a carinhosamente, tentando acalmar-lhe os temores. Quando a crise de choro abrandou, ele a colocou na cama, deixando-a 
encostada em seu ombro e puxou as cobertas sobre ambos.
com uma das mos, ele afagava os cabelos dela e ia repetindo baixinho:
- Tudo est bem. No precisa ter medo de nada. Estou aqui ao seu lado.
- Estou... to s! Sou to infeliz! - ela disse, entre longos e doloridos soluos. - Voc tem. Thelia. Sei que a ama. Mas eu no tenho ningum! Estou s... Terrivelmente 
s.
Vladilas notou o desespero que havia na voz de Ileana, percebendo que ali to desamparada ela se despia de todo orgulho e de toda a arrogncia.
- Minha querida e infeliz esposa - ele disse suavemente.
- Precisamos conversar muito seriamente. Tenho muitas coisas para lhe explicar e quero que afaste todas essas dvidas e todas essas tolices de sua cabecinha. Quanto 
aos morcegos, amanh mesmo vou afugent-los da torre. Mandarei tapar todos os buracos e vos por onde eles possam querer entrar. Fique certa de que no voltaro 
a atorment-la.
Apesar de mais calma, Ileana continuava soluando.
Aquele pavor em relao aos morcegos vinha de sua infncia. Certa vez, uma governanta lhe contara a histria de um morcego, que se prendera nos longos cabelos de 
uma mulher e que havia ficado se debatendo, embaraando-se cada vez mais nos fios. O nico meio de libertar o asqueroso animal fora cortar todo o cabelo da pobre 
mulher.
Desde ento, terrivelmente impressionada, ela no suportava nem ouvir os guinchos de morcegos, nem v-los voando, ao cair da noite.
- Vai mesmo expulsar todos esses. monstrinhos?
- Amanh logo cedo. Prometo!
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- Mas novouvoltar para o meu quarto. esta noite!
- Claro que no! Podemos trocar de quartos. ou, ento, fique aqui. comigo.
Ela s se sentiria segura ao lado de Vladilas e no queria nem pensar em ficar sozinha. Porm, no respondeu.
- Gostaria de lhe pedir desculpas, por no ter vindo jantar com voc - ele disse. - Houve um acidente com um dos homens, quando descarregava uma das carretas. Alm 
de cortes profundos na perna, chegamos a pensar que a tivesse quebrado e fomos buscar um mdico na cidade. Foi tudo por culpa minha; jamais poderia ter vindo para 
c sem um mdico. Mas, agora, j contratei um clnico geral para ficar permanentemente aqui em Mispa. Ele estar aqui assim que erguermos a barraca, que funcionar 
como hospital provisrio.
Ela ouvia tudo, atenta, embora permanecesse em silncio. Vladilas continuou:
- Quando o mdico terminou de cuidar do paciente, j era muito tarde para vir jantar com voc. Ento, aceitei comer qualquer coisa com uma das famlias. Sabe que 
temos excelentes cozinheiras. E eu estava faminto! S havia comido de manh.
Fazendo uma pausa, ele se aproximou mais de Ileana. Ela apoiou a cabea nos ombros fortes do marido, sentindo o doce calor daquele aconchego.
Retomando a narrativa, ele tentou parecer o mais casual possvel:

- No estive com Thelia. Naturalmente, ela estava com seu marido.
- com... o marido?
Ileana ficou to surpresa com o que tinha acabado de ouvir, que no podia dizer se havia gritado ao dizer aquelas palavras, ou se apenas as murmurara.
Vladilas j esperava aquela reao e, com a mesma voz casual, foi explicando:
- O marido de Thelia  um dos meus homens mais leais e mais devotados.  um dos meus comandantes e ser o encarregado da administrao do Vale Mispa. Ele e Thelia 
estavam
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ansiosos para vir para c. Queriam construir sua casa, ter o seu cantinho. Thelia est esperando beb. Ela prendeu a respirao. - Mas. Thelia ama voc!
- No. Talvez tenha alguma admirao por mim. S isso. Sou para ela uma espcie de... heri. Conheo-a desde que era ainda uma criana. Toda a sua famlia  grega 
e seus pais eram grandes amigos de minha me. Ainda no refeita da surpresa, Ileana murmurou: - Thelia  to. maravilhosa... e pensei que... voc a amasse.
-  mesmo uma linda mulher. H dois anos, cheguei a pensar que me apaixonara por ela. Nessa poca, Thelia estava com dezoito anos. Vi, porm, que me enganara. Era 
por outra que eu estava, realmente, perdido de amor.
Ileana ficou tensa.
- Ento, estava apaixonado. por outra mulher! - ela disse, em voz baixa.
- Perdidamente apaixonado. Era uma jovem to linda como nunca tinha visto outra igual. Eu s pensava nela. ela no saa de minha cabea!
- E o que aconteceu?
- Precisei partir e s voltei a ver essa mulher h seis meses atrs. Nessa ocasio, tive plena certeza de que ela era a mulher com que sempre havia sonhado e jurei 
que seria minha esposa!
Ela sentiu o peito se apertar. Tentou afastar-se do marido, mas ele a envolveu em seus braos e trouxe-a para mais perto de si.
- E por que. no se casou. com ela? - perguntou Ileana, sem conseguir esconder o desespero que havia em sua voz.
Vladilas respondeu calmamente:
- Foi exatamente isso que eu fiz!
Por um momento, ela achou que no tinha ouvido bem. Ergueu a cabea e olhou para ele.
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- Voc disse... que. que se casou... com ela?
- Isso mesmo. Casei-me com ela - repetiu ele.
- Mas. como  possvel? Voc disse que se apaixonou... dois anos atrs!
Cada vez mais confusa, ela esperava, impaciente, a explicao do marido.
- Foi h dois anos que eu a vi pela primeira vez! Vim a Zokala para conhecer este castelo e as terras de meu pai que, por herana, passaram a ser minhas. Sempre 
tive vontade de visitar este pas, para ver se era mesmo maravilhoso como dizia meu pai. Ele sempre amou Zokala.

- E o que aconteceu? - perguntou ela, cada vez mais interessada e curiosa.
- Vi uma jovem to linda, to encantadora, que no parecia ser real. com certeza, era um ser sobrenatural, que viera l das mais altas montanhas, com seus picos 
cobertos de neve.
Ileana deu um longo suspiro e encostou seu rosto no de Vladilas. Ele continuou:
- Voc estava montada em um cavalo magnfico! Logo percebi que era uma perfeita amazona. E eu a admirei no s por cavalgar muito bem, mas tambm por sua personalidade.
- Mas, por que, ento, no me lembro de voc?
- E por que deveria? Eu estava apenas de passagem e no chegamos sequer a conversar. Entretanto, como sou muito curioso, consegui saber tudo o que queria sobre voc. 
Falei com muita gente, fiz muitas perguntas sobre a princesa Ileana e todos me deram as informaes de que eu precisava.
- Mas por que no me procurou? Ou. por que no procurou meu pai?
- Eu no estava certo de ser bem recebido. Poderia haver ainda ressentimentos. De minha parte, pelo menos, havia uma certa mgoa pelo que acontecera a meu pai.
- Depois que partiu. pensou em. mim?
- S pensava em voc. No conseguia tir-la de meu pensamento. Mais tarde, logo depois que meu pai morreu, soube que o rei Milko estava em coma e resolvi voltar 
a Zokala. Isso
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foi h seis meses. No entanto, antes de vir para c, visitei a ustria, a Hungria e outros pases. Desejava estar muito bem informado sobre as intenes de nossos 
vizinhos com relao a Zokala.
- O que aconteceu. depois?
- Desde a primeira vez que a vi, sabia que iria ser minha. No descansaria enquanto no a conquistasse.
Ela ergueu a cabea, perguntando:
- Voc... me desejava?
- Preciso mesmo dizer o quanto a desejava? - disse ele,
num sussurro.
Ento, como para reforar sua resposta, Vladilas olhou apaixonadamente para Ileana. O rosto dela ainda estava molhado de lgrimas, os longos clios midos, e os 
lbios, trmulos, por causa de todas as emoes por que havia passado.
Ele a abraou com mais fora e os dois se beijaram demoradamente, com paixo, com loucura.
Naquele momento, ela percebeu que era pelo amor de Vladilas que sua alma sempre ansiara. Como desejava aqueles beijos possessivos, insistentes e, ao mesmo tempo, 
to ternos! Todo seu corpo vibrava, desperto, faminto, na tortura do desejo. Experimentava um prazer e uma excitao tais que jamais pensara sentir na vida.
Seu corao batia descompassado e sentia a garganta comprimida e os lbios, sequiosos, ansiavam por mais e mais beijos.
Como ela desejava ser toda de Vladilas! Queria pertencer somente a ele, sem reservas nem represses. Queria libertar toda a paixo, que fora contida por tanto tempo 
e que, agora, sentia explodir num xtase indescritvel, com toda a fora de sua feminilidade.

Percebia, naquele momento, que sempre amara Vladilas, desde o primeiro dia em que o vira no acampamento dos pallikares. Todavia, no tomara conscincia desse amor, 
de que estava destinada a ser dele desde a origem dos tempos.
Como no pudera perceber at ento que, desde aquele momento em que ele a arrebatara da sela, pondo-a em seu colo, passara a admir-lo? Como no notara que ele reunia 
todas as qualidades que sempre buscara num homem?
Os dois continuaram se beijando, seus corpos vidos de prazer. Estavam muito unidos, seus coraes batendo em unssono, e j no eram mais dois. Eram apenas um s 
corpo e uma s alma.
lleana sentiu que alava vo. Tinha a sensao de que Vladilas a fazia transportar-se a alturas maiores do que a dos mais altos picos das montanhas que os rodeavam. 
Seus corpos febris queriam se doar um ao outro, numa entrega recproca e total.
- Voc me deixa louco! - disse ele, com a voz rouca, alterada pelo desejo.
- E eu. sou louca por voc! Sempre o amei. mesmo quando pensava que o odiava.
- Minha esposinha adorada!
- Por favor. no me deixe! Nunca! 
- Como pode pensar que a deixarei algum dia? - disse ele, cobrindo-a de novos beijos.
Os dois continuaram a se amar, selvagem e apaixonadamente, pela madrugada.
lleana continuava a experimentar sensaes que jamais pensara sentir. Vladilas beijava-lhe o pescoo, ia descendo pelos ombros, pelos seios, pelo ventre. E ela desabrochava, 
tornando-se mulher, sentindo o despertar de toda a sua sensualidade.
Seus corpos unidos atingiram o xtase supremo, e eles j no se sentiam mais na Terra. Era como se pairassem acima dos montes, quase tocando as estrelas cintilantes. 
Como se no fossem mais simples mortais, mas que reinavam, gloriosos, entre os deuses!
Muito tempo depois, lleana se mexeu, mas continuou no doce aconchego dos braos do marido.
As velas, sobre os criados-mudos, j estavam quase apagando e ela perguntou, um tanto timidamente:
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- Voc... ainda me ama?
- Minha adorada! - respondeu Vladilas. - Eu  quem devia estar fazendo essa pergunta.
- Eu no sabia... que o amor pudesse ser... algo to maravilhoso... to glorioso... to enlouquecedor!
- Eu a fiz feliz? No a machuquei?
- Foi... perfeito!
- J no tem medo de mim?
- S terei medo se... deixar de me amar... ou se me deixar sozinha. como fez hoje.
- Nunca mais a deixarei sozinha. Prometo.
- No falou comigo. nem mesmo olhou para mim. depois que. me viu com... Tomilav. Voc no sabe como sofri com. sua indiferena!
- Evitei at mesmo olhar para voc para poder me controlar. Cada vez que a via, minha vontade era tom-la nos braos, ench-la de beijos e torn-la minha!
- S agora percebo que teria sido. maravilhoso se fizesse... isso! Mas. eu no. compreendia ainda.
- No compreendia o qu?

- Que amar voc  to... excitante... to maravilhoso!  como o raio de sol. as flores. . como ser levada pela brisa.
- Minha querida! Era isso mesmo que esperava que sentisse!
- E para voc. tambm foi... assim? - perguntou ela, com imensa doura no olhar.
- Amar voc foi o momento supremo de minha vida! respondeu o marido, inebriado de felicidade.
- Oh, Vladilas! Como amo voc!
- E eu a adoro, minha mulherzinha maravilhosa! Depois, com um sorriso, ele continuou:
- O prncipe Tomilav pode se dar por muito satisfeito por eu no ter lhe quebrado o nariz!
- Pobre Tomilav! Ele pretendia apenas me dar um beijo de despedida... no rosto!
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Vladilas a abraou fortemente, enquanto dizia, olhando-a bem dentro dos olhos:
- Quero deixar uma coisa bem clara, minha adorada: sou um bandido e, se algum ousar tocar em voc, a no ser com muito respeito, juro que o mato e ainda dou uma 
surra em voc!
A voz dele soou to divertida, que Ileana deu uma risada sonora.
-  muito excitante saber que tem cimes de mim. E eu... morria de cimes de Thelia! S espero que, no futuro, no haja outras Thelias. para me fazer infeliz.
Acariciando os cabelos dela, Vladilas respondeu:
- Jamais pensarei em outra mulher, a menos que deixe de me amar. Voc rene tudo que sempre desejei encontrar em uma mulher. E. to perfeita que, s vezes, penso 
que no deve ser real.
Houve um momento de silncio e, em seguida, ela disse, com simplicidade:
- No estou certa de que vou conseguir ser dcil, meiga... obediente. como quer que uma esposa seja.
- Sei que, daqui para frente, ser a esposa mais adorvel e mais perfeita.
- Mas voc vai continuar me obrigando a fazer coisas de que eu no gosto?
-vouapenas amar voc. No irei for-la a nada. E tenho certeza de que vai fazer tudo por amor a mim. Pelo nosso amor.
Acariciando os cabelos da esposa, ele continuou:
- Adoro voc, acho-a linda! Admiro sua vivacidade e sua inteligncia. Mas, como voc bem sabe, uma mulher deve ser, tambm, dcil, meiga e feminina.
O senso de independncia, a caracterstica marcante da personalidade de Ileana, fez com que ela perguntasse, provocando o marido:
- Mas, se no conseguir de mim o que quer. a seu modo... vai forar-me a faz-lo, no vai?
- No! Se a forcei a se casar comigo foi porque tnhamos
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pouco tempo. Por outro lado, no a obriguei a vir. dormir comigo esta noite. Na verdade, eu imaginava que passaria a noite acordado, sem poder dormir, tal era o 
meu desejo, tal a vontade que tinha de atravessar a saleta, de ir at seu quarto e de tom-la nos braos. Mas no fui. Ileana olhou para ele e disse:

- De certa forma, essa distncia, que procurou manter de mim, e essa aparente indiferena foram uma boa ttica para que eu tambm o desejasse, no?
- Talvez...
-  uma ttica bastante sutil, para fazer o inimigo se render. Mas deve lembrar-se de que os morcegos tambm desempenharam um papel muito importante na ofensiva.
- Entretanto, se no fossem os morcegos, seria outra coisa qualquer. Voc estava destinada a ser minha.
- Em outras palavras. eu capitulei!
- Exatamente! Uma adorvel capitulao, porm! - ele concordou, sorrindo. - Mas no quero v-la infeliz novamente, nem faz-la chorar.
- Adorou me ver correndo para seus braos, em busca de proteo!
- Posso proteg-la e confort-la, querida! Mas no quero que me procure somente para buscar um refgio. Quero que me deseje e que me procure como homem, como um 
amante apaixonado.
Ileana ficou um pouco tmida e disse, logo depois:
- Entretanto, se eu ficar junto de voc o tempo todo, vai acabar se cansando de mim.
Vladilas sorriu.
- Isso jamais acontecer, minha querida. E fique sabendo que, se no vier me procurar,voudeix-la sozinha no meio de uma poro de morcegos!
Ela deu um grito de horror e abraou o marido com fora.
- Como pode ser to. mau! Como pode pensar em tamanha crueldade?
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O olhar de Vladilas no podia ser mais terno quando ele respondeu:
- S queria que ficasse bem pertinho de mim, bem agarradinha.
- Oh, querido! Preciso tanto de voc! - ela murmurava.
- Preciso de seu amor. desesperadamente! Jamais quero me separar de voc!
- Pode estar certa de que ter sempre o meu amor! Estaremos sempre juntos e prometo que jamais darei motivos para voc sofrer. Mas tem que me prometer, tambm, que 
jamais haver outro homem beijando-a nas minhas costas.
Ileana sorriu.
- No quero nenhum outro homem me beijando. S quero voc! Estou descobrindo um mundo novo ao seu lado. Toda vez que o vejo, toda vez que penso em voc, acho-o maravilhoso. 
no consigo encontrar palavras para dizer o que sinto.
Enquanto falava, ela puxou a cabea de Vladilas, colocou-a no colo e comeou a afagar os cabelos dele.
- Nunca me apaixonei antes - ela murmurou. - Quero que me ensine o que devo fazer. como devo agir. para ser a companheira. a amante perfeita. Para que voc me ame 
sempre... apaixonadamente!
-  muito fcil - respondeu ele. - Tudo que tem a fazer  entregar-se a mim por completo. Quero que sejam s meus os seus pensamentos, suas idias, seus sentimentos 
e, claro, minha mulherzinha adorada, esse seu corpo lindo e sedutor que tanto me enlouquece.
As mos de Vladilas tocaram novamente o corpo de Ileana e ela estremeceu.
Naquele momento, desejou dar um filho a Vladilas. Um filho bem parecido com ele, fruto daquele amor to imenso, to maravilhoso.

O futuro no lhe parecia mais sombrio nem ameaador. Estava certa de que, ao lado do homem que ela amava, a vida lhe sorriria e que ela e Vladilas teriam toda a 
felicidade do mundo.
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A esses pensamentos, os olhos verdes de lleana ganharam nova luz.
Notando aquele cintilar, Vladilas disse:
- O fogo que vejo em seus lindos olhos verdes me faz muito feliz. No entanto, quantas vezes o fogo do seu olhar me deixou desesperado!
- Por qu?
- Porque eu via nele o fogo do dio. Agora, vejo o fogo do amor e da paixo.
Sentindo-se novamente excitada com aquelas palavras, ela disse:
- Quando voc me toca, as chamas que v em meus olhos tambm correm por todo o meu corpo. ardem em minhas veias...  uma sensao, ao mesmo tempo, estranha e maravilhosa 
 um prazer que... s sinto perto de voc e que jamais havia sentido antes!
Tambm desejoso de aplacar seu desejo na maciez e no calor do corpo de lleana, Vladilas amou-a novamente, com ternura e paixo, com volpia e carinho. Ele era, a 
um tempo, splice, para se tornar, depois, possessivo e dominador.
E ela seguia-lhe o ritmo, correspondendo s suas exigncias, entregando-se por inteiro, perdendo-se naquele universo de carcias.
Naquele alternar de emoes, os dois corpos vibravam, atingindo a perfeio do amor entre um homem e uma mulher.
- Como voc sacia meus desejos! - disse ela, arrebatadamente.
- Quero mesmo deix-la satisfeita, minha linda rainha. Quanto tempo esperei para poder ouvir essas palavras de seus lbios! Como era grande a minha ansiedade para 
estreit-la em meus braos! Como sofri, pensando que talvez no me quisesse!
Os dois se olharam apaixonados. No havia necessidade de dizer mais nada para expressar o que sentiam.
Confiantes no amor que os unia, eles sabiam que poderiam conquistar o mundo e que um amor to forte como o deles,
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alm de torn-los completos como homem e mulher, iria extravasar-se, irradiar-se, contagiando a todos que os cercavam.
Vladilas e Ileana iriam, juntos, criar um reino de beleza, de paz e de prosperidade, onde todos viveriam felizes.
Ambos sabiam que a felicidade resulta do amor pleno e que o amor pleno  a essncia da vida.
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QUEM  BARBARA CARTLAND?

As histrias de amor de Barbara Cartland j venderam mais de 350 milhes de livros em todo o mundo. Numa poca em que a literatura d muita importncia aos aspectos 
mais superficiais do sexo, o pblico se deixou conquistar por suas heronas puras e seus heris cheios de nobres ideais. E ficou fascinado pela maneira como constri 
suas tramas, em cenrios que vo do esplendor do palcio da rainha Vitria s misteriosas vastides das florestas tropicais ou das montanhas do Himalaia. A preciso 
das reconstituies de poca  outro dos atrativos desta autora, que, alm de j ter escrito mais de trezentos livros,  tambm historiadora e teatrloga. Mas Barbara 
Cartland se interessa tanto pelos valores do passado quanto pelos problemas do seu tempo. Por isto, recebeu o ttulo de Dama da Ordem de So Joo de Jerusalm, por 
sua luta em defesa de melhores condies de trabalho para as enfermeiras da Inglaterra, e  presidente da Associao Nacional Britnica para a Sade.
No perca a prxima edio!
Noivado sem amor
Fascinante, rico, dono de manses e castelos,
o duque de Tynemouth era amado
pelas mulheres e invejado pelos homens.
Solteiro mais cobiado do reino,
desprezou todas as damas da corte
e casou-se com Honora, jovem inocente, recm-sada do convento.
O destino, porm, armou uma triste
armadilha... Honora foi sequestrada em sua
noite de npcias! O duque teria sorte,
fora e poder suficientes para resgatar
sua frgil e doce esposa das mos dos srdidos bandidos?

Fim
